Cacau irrigado aumenta produtividade em até 10 vezes frente ao modelo tradicional

O cacau cultivado a pleno sol e com irrigação começa a mudar a produtividade da cultura em novas fronteiras agrícolas do Brasil. Em áreas do Nordeste, produtores já trabalham com metas de 3.000 a 4.500 quilos de amêndoas por hectare, resultado até 10 vezes acima dos rendimentos tradicionalmente observados em sistemas mais antigos.

A combinação de água controlada, genética, manejo e adaptação ao ambiente está transformando o cacau em uma cultura de interesse para áreas de Cerrado, semiárido e litoral.

O modelo é diferente do sistema tradicional da cabruca, predominante no sul da Bahia. Nele, o cacau é cultivado sob a vegetação da Mata Atlântica. Nas novas fronteiras, o plantio ocorre diretamente sob o sol, embora as plantas recebam proteção nos primeiros anos.

O produtor cearense Altamir Martins implantou 13 hectares de cacau consorciado com um coqueiral de aproximadamente 30 anos, em Acaraú, no litoral do Ceará. A área reúne cerca de 15 mil plantas e seis materiais genéticos em teste.

A primeira colheita começou no ano passado. Para este ano, a expectativa é chegar a 1.500 quilos de amêndoas por hectare. Para o próximo ano, a meta é alcançar 3.000 quilos por hectare na mesma área. “O cacau começa produzindo pouco. À medida que vai se desenvolvendo, vai tendo uma envergadura maior”, explica Martins.

Cacau exige adaptação ao ambiente

A experiência cearense mostra que levar o cacau para uma região nova não significa simplesmente copiar o modelo utilizado em outras áreas. Martins, engenheiro agrônomo com quatro décadas de experiência em fruticultura, passou anos trabalhando com manga, uva e coco. Ao decidir investir no cacau, em 2021, visitou diferentes regiões produtoras e estudou as condições do litoral cearense.

Quando começou a implantação, em 2022, enfrentou o problema de não haver mudas adaptadas à região. As plantas trazidas de Rondônia e da Bahia chegaram em condições ruins, segundo ele. A fragilidade das mudas diante do transporte provocou perdas importantes.

A resposta foi criar um viveiro próprio. “Não dá para pegar uma tecnologia do Pará e uma tecnologia da Bahia e traduzir aqui num litoral a 8 km da praia. Não tem como fazer isso sem adaptar”, afirma.

O produtor passou então a selecionar materiais e desenvolver substratos adaptados ao solo local. O objetivo era fazer com que a muda chegasse ao campo mais resistente às condições específicas do litoral.

Irrigação vira peça central

A irrigação é outro elemento decisivo. O pesquisador Maurício Coelho, da Embrapa Mandioca e Fruticultura, explica que o cacau é uma cultura exigente em água e sensível a estresses ambientais.

Em regiões semiáridas ou de Cerrado, o balanço entre chuva e evaporação pode produzir longos períodos de déficit hídrico. Nessas condições, a irrigação deixa de ser apenas um recurso de segurança e passa a ser parte da própria viabilidade econômica do cultivo.

“Geralmente nessas zonas fora das tradicionais, que têm uma condição climática favorável, você precisa usar a tecnologia da irrigação”, explica.

A água, porém, não resolve todos os problemas. O cultivo a pleno sol também exige proteção contra vento e excesso de radiação, especialmente na fase inicial.

O professor George Sodré, da Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC), resume o cuidado necessário. “Não se planta cacau sem proteger do vento. O cacau morre de medo de vento”, explica.

Por isso, banana, coco, mamão, macaxeira e outras culturas podem ser utilizadas como proteção inicial. Com o desenvolvimento das plantas, esse sombreamento temporário é retirado.

Menos umidade, menos doenças

Uma das vantagens apontadas pelos pesquisadores para as novas regiões está justamente na menor umidade relativa do ar. As principais doenças do cacau estão associadas a ambientes úmidos. Entre elas estão a vassoura-de-bruxa, as podridões de Phytophthora e a monilíase.

Ao migrar para ambientes mais secos, a pressão de algumas dessas doenças pode diminuir. Segundo Sodré, fungos não gostam de ambientes com baixa umidade relativa.

“Quando você sai da região úmida, você tem, entre outras questões, a redução da umidade relativa do ar. E fungo não gosta de ambiente com umidade relativa baixa”, explica.

Mas o pesquisador alerta que isso não significa ausência de problemas. O calor e a baixa umidade podem provocar outros efeitos, como a viviparidade, quando a semente começa a germinar dentro do próprio fruto.

O fenômeno compromete a qualidade das amêndoas e pode inviabilizar o processamento. Por isso, a expansão do cacau para regiões mais secas exige pesquisa específica.

Genética pode determinar o futuro

A escolha dos clones é outro ponto crítico. Segundo Sodré, dois materiais estão entre os mais utilizados nas novas plantações: o CCN 51 e o PS 1319. O primeiro foi desenvolvido no Equador. O segundo tem origem em uma fazenda do sul da Bahia.

O professor alerta, entretanto, para o risco de concentrar grandes áreas em poucos materiais genéticos. Uma nova doença poderia atingir extensas áreas simultaneamente.

Ao mesmo tempo, os materiais precisam ser avaliados não apenas pela produtividade, mas também pela qualidade da amêndoa. “O que vai determinar a questão qualitativa é o manejo”, afirma Maurício Coelho.

Segundo ele, plantas jovens e geneticamente selecionadas, associadas a condições de menor umidade e manejo adequado, podem apresentar alto potencial produtivo.

Oeste da Bahia mostra potencial de escala

O Oeste da Bahia é um dos exemplos mais avançados dessa nova lógica. Segundo informações da Secretaria de Agricultura da Bahia (Seagri), fazendas da região já alcançam entre 3.000 e 3.500 quilos por hectare, enquanto a média nacional citada pelo órgão fica entre 330 e 400 quilos por hectare.

George Sodré cita uma propriedade de 500 hectares totalmente irrigados na região de Barreiras e Luís Eduardo Magalhães. O empreendimento utiliza pivô central, tecnologia típica da agricultura empresarial do Cerrado.

O professor também chama atenção para o perfil dos investidores que começam a olhar para a cultura. “Quando eles querem coomprar terras, eles querem 5.000 hectares. Eles querem impactar realmente”, afirma.

Essa escala contrasta com a estrutura histórica da cacauicultura brasileira. Segundo Sodré, o produtor médio do sul da Bahia possui cerca de 10 hectares; no Pará, as propriedades podem ser ainda menores.

Piauí aposta em pequenos produtores

No Piauí, a proposta é aproveitar a tecnologia do cultivo irrigado a pleno sol, mas distribuí-la entre agricultores familiares. Luiz Alberto Santos, da Coopercau Piauí, trabalha com um projeto que prevê 10 mil hectares em cinco anos.

A estratégia é integrar o cacau às culturas tradicionais dos agricultores. Em vez de substituir feijão, milho, abóbora, melancia ou macaxeira, o cacau entra em um sistema agroflorestal irrigado. “Ele vai sempre ser plantado associado àquela cultura que o sertanejo já tem costume de operacionalizar no seu dia a dia”, afirma.

O modelo também busca criar escala comercial por meio da cooperativa. A Coopercau Piauí já reúne 89 associados, com propriedades de meio hectare, 1 hectare, 2 hectares e 3 hectares.

Do cacau à indústria

A busca por produtividade vem acompanhada da preocupação de garantir mercado. No Ceará, Altamir Martins reúne sua produção com a de outros produtores para alcançar volume suficiente para comercialização. As amêndoas são encaminhadas para análise e compradores especializados.

No Piauí, a cooperativa já mantém conversas com grandes empresas e traders interessados na produção. A estratégia inclui contratos de fornecimento antecipado, os chamados contratos off-take, ou a comercialização conjunta pela cooperativa.

Para Luiz Alberto Santos, esse modelo pode ajudar o Brasil a recuperar espaço no mercado mundial. O que o Brasil importa atualmente cerca de 50% do cacau que consome. O produtor produtor acredita que as novas fronteiras poderão contribuir para reduzir esse déficit.

Ele projeta uma transformação de longo prazo, com pequenos produtores espalhados pelo país somando áreas capazes de devolver ao Brasil uma posição de liderança.

Produzir mais, mas também aproveitar melhor

Para George Sodré, produtividade não deve ser o único indicador da nova cacauicultura. O aproveitamento integral do fruto e a agregação de valor também precisam entrar na conta. Uma amêndoa seca representa apenas uma pequena parte do fruto. Segundo o professor, para cada 1.000 quilos de sementes secas são gerados cerca de 7.000 quilos de casca.

O aproveitamento desses resíduos pode criar novas receitas e reduzir desperdícios. “Essas regiões precisam entrar já olhando na cadeia como um todo”, afirma. O professor defende sistemas produtivos que combinem cacau com outras culturas, aproveitem resíduos e criem fontes adicionais de renda.

É nesse ponto que o novo cacau se distancia de uma simples expansão de área. A proposta é transformar a cultura em um sistema produtivo mais tecnológico, diversificado e integrado.

Fonte: movimentoeconomico

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