Cacau recua, mas permanece volátil em meio ao compasso de espera com safra africana
O mercado de cacau inicia esta semana com leve alta após a forte volatilidade observada entre o final de agosto e os primeiros dias de setembro, quando o CCZ6 bateu a máxima do ano a US$6.821/t em 31/Ago. O contrato mais líquido ainda negocia acima da barreira psicológica de US$ 6.000/t, algo que se estende ao longo da curva de 2027 (praticamente flat entre os vencimentos), refletindo um mercado que não enxerga risco imediato de escassez física, mas que ainda incorpora prêmio relevante diante das incertezas climáticas e produtivas à frente.
Do ponto de vista fundamentalista, o cenário global permanece significativamente mais confortável do que há um ano – estamos, afinal, num superávit de 422 mil t contra 46 mil t. A recuperação produtiva da Costa do Marfim em 2025/26, levando a produção novamente para próximo de 2 mmt, reduziu o aperto do balanço global e permitiu uma recomposição importante dos estoques certificados nas bolsas internacionais. Esse processo, aliado a relações estoque/uso das mais altas em anos (37,7% para 2025/26 e 37,4% para 2026/27), continua sendo um dos principais fatores limitadores para movimentos mais agressivos de alta.
Ainda assim, a atenção do mercado já está totalmente voltada para o próximo ciclo. As condições climáticas na África Ocidental seguem relativamente favoráveis, sem indícios concretos de perdas associadas ao El Niño até o momento. Por outro lado, as contagens de vagens continuam abaixo dos níveis observados no ano passado e com um ‘shift pra frente’ de dois meses da sazonalidade, especialmente nas categorias mais avançadas, sugerindo que a próxima safra dificilmente repetirá o desempenho excepcional de 2025/26. O cenário mais provável continua sendo de uma produção menor em 2026/27 que a da temporada corrente de 2025/26 (em 6% segundo nossa expectativa, para 4,8 mmt), embora ainda distante de um quadro de quebra severa.
Outro ponto monitorado é o ritmo inicial da nova colheita, com as entregas da safra principal da Costa do Marfim poderão começar de forma mais lenta entre Set-Out, acelerando apenas no final do quarto trimestre, reflexo do desenvolvimento tardio dos frutos. Embora isso não altere significativamente o potencial produtivo total, pode gerar momentos pontuais de aperto físico durante a transição entre safras.
Na demanda, o cenário permanece cauteloso. Apesar da estabilização observada nas moagens, o consumo global segue abaixo dos níveis históricos (subindo 0,2% neste ano e 2% no próximo) e as margens da indústria continuam pressionadas, limitando uma recuperação mais rápida. Paralelamente, a redução das posições vendidas dos fundos ao longo dos últimos meses contribuiu para a recuperação dos preços desde junho, mas a ausência de uma posição líquida comprada relevante indica que o mercado ainda aguarda sinais mais claros sobre o potencial produtivo da África Ocidental.
Em nossa avaliação, o mercado segue em uma zona de equilíbrio delicado, e que aguarda efetivação da safra para tomar um novo direcional. De um lado, a recomposição dos estoques globais, a recuperação produtiva observada em 2025/26 e a demanda ainda fragilizada limitam argumentos para uma valorização sustentada. De outro, as incertezas relacionadas à safra 2026/27, ao desenvolvimento do El Niño e às contagens de vagens inferiores às do ano passado impedem uma precificação mais baixista. Assim, entendemos que a volatilidade deverá permanecer elevada nas próximas semanas, com os preços oscilando principalmente em função das expectativas para a nova safra africana e da evolução dos riscos climáticos para o período do Harmatã, que se aproxima no final do ano.


