Costa do Marfim mantém preço ao produtor, mas diferença com Gana eleva risco de contrabando

A Costa do Marfim iniciou a safra principal de cacau 2026/27 mantendo o preço pago ao produtor em 1.200 francos CFA por quilo, equivalente a aproximadamente US$ 2,12. O valor, anunciado pelo ministro da Agricultura, Bruno Koné, permanecerá como referência para a colheita prevista até 28 de fevereiro de 2027.

Apesar de não apresentar mudança em relação ao preço adotado em março, o patamar representa uma redução expressiva na comparação com o começo da temporada 2025/26, quando os agricultores chegaram a receber o valor recorde de 2.800 francos CFA por quilo.

A queda acompanha o recuo das cotações internacionais do cacau em relação às máximas históricas registradas no ano passado. Como maior produtor mundial, a política de preços da Costa do Marfim tem influência direta sobre a renda dos agricultores e sobre o fluxo regional de amêndoas.

O anúncio marfinense ocorre enquanto Gana se prepara para definir sua política de remuneração para a nova temporada. Anteriormente, o país vizinho havia estabelecido o preço em 41.392 cedis, equivalente a aproximadamente 2.000 francos CFA por quilo.

A diferença de cerca de 800 francos CFA por quilo em relação à Costa do Marfim aumenta as preocupações com o contrabando de cacau entre os países. A possibilidade de obter uma remuneração mais elevada pode estimular o deslocamento irregular de amêndoas marfinenses para Gana, Libéria e Guiné.

O risco também é reforçado pela nova legislação ganesa, que permite ao Conselho do Cacau de Gana revisar periodicamente o preço pago aos produtores, em vez de mantê-lo fixo durante toda a temporada.

Fontes da indústria estimam que a Guiné já movimente aproximadamente 100 mil toneladas de cacau por ano, enquanto a Libéria comercializaria cerca de 30 mil toneladas. Uma parcela desses volumes teria origem em países produtores vizinhos.

Ao mesmo tempo que enfrenta o desafio de proteger sua produção, a Costa do Marfim busca agregar mais valor ao cacau dentro do próprio país. Segundo o diretor-geral do Conselho de Café e Cacau, Yves Brahima Koné, a capacidade instalada de processamento deverá passar de 1,155 milhão para 1,344 milhão de toneladas na temporada 2026/27, com a entrada de novas unidades industriais.

Durante a safra 2025/26, o país processou cerca de 650 mil toneladas, volume equivalente a aproximadamente 30% de sua produção. A meta do governo é elevar esse percentual para 50%, reduzindo a dependência da exportação de amêndoas e ampliando a participação marfinense nas etapas de maior valor da cadeia.

Para sustentar essa expansão, o setor ainda precisará avançar na produtividade agrícola. Entre as prioridades estão o desenvolvimento de variedades mais resistentes a doenças e à seca, a mecanização das lavouras e o fortalecimento do controle de pragas e enfermidades.

A manutenção do preço em 1.200 francos CFA, portanto, abre a nova temporada sob um cenário delicado: enquanto o governo tenta ajustar a remuneração dos agricultores à realidade do mercado internacional, a diferença de preços entre países vizinhos pode aumentar os desvios de produção e dificultar o controle da oferta oficial.

Fonte: mercadodocacau com informações foodbusinessmea

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