A Costa do Marfim iniciou a safra 2026/27 com uma mudança importante na comercialização do cacau. Desde 1º de setembro, o uso do cartão do produtor passou a ser obrigatório nas transações realizadas na origem, ampliando o controle sobre quem produz, onde o cacau é cultivado e por qual caminho as amêndoas chegam ao mercado.
O mecanismo integra o Sistema Nacional de Rastreabilidade desenvolvido pelo Conselho do Café e Cacau (CCC). A estrutura vincula o produtor às áreas de cultivo geolocalizadas e busca permitir o acompanhamento da produção ao longo da cadeia de comercialização. Mais de 1 milhão de produtores já foram cadastrados e aproximadamente 3 milhões de hectares de áreas agrícolas foram geolocalizados no país.
Na prática, a medida representa mais um passo para enquadrar os agricultores marfinenses dentro de um modelo de rastreabilidade individualizada da produção, justamente às vésperas de uma mudança importante no acesso ao mercado europeu.
O cacau está entre as commodities abrangidas pelo Regulamento da União Europeia sobre Produtos Livres de Desmatamento, o EUDR. Para entrar no mercado europeu, os operadores precisarão comprovar, entre outros requisitos, a origem do produto, sua ligação com propriedades geolocalizadas, a legalidade da produção e a inexistência de desmatamento associado após a data de corte definida pela regulamentação.
O cronograma da legislação já passou por sucessivos adiamentos. Inicialmente, as principais obrigações estavam previstas para dezembro de 2024; posteriormente foram transferidas para dezembro de 2025 e, após nova revisão aprovada pela União Europeia, passaram para 30 de dezembro de 2026 para grandes e médias empresas. Para a maioria das micro e pequenas empresas, o prazo será 30 de junho de 2027.
Desta vez, porém, os sinais emitidos pela Comissão Europeia são de avanço efetivo para a implementação. Em julho, a Comissão atualizou ferramentas digitais e regras operacionais para o cumprimento do EUDR e reiterou que a regulamentação começará a ser aplicada no final de dezembro.
Nesse cenário, a obrigatoriedade do cartão do produtor na Costa do Marfim ganha importância estratégica. Ao associar produtor, área georreferenciada e comercialização, o país procura criar as condições para que seu cacau continue atendendo ao principal mercado consumidor internacional.
O processo, entretanto, não deverá ocorrer sem dificuldades. Há relatos de que parte dos produtores ainda enfrenta problemas relacionados ao novo sistema, o que pode criar gargalos durante a implantação. A própria necessidade de cadastrar produtores, validar propriedades e conectar os volumes comercializados às respectivas áreas de origem adiciona uma nova camada operacional à cadeia.
Esse ponto merece atenção porque a mudança ocorre simultaneamente ao início de uma safra principal que já apresenta indícios de atraso.
Fontes do setor estimam que as chegadas mais relevantes da safra 2026/27 poderão ocorrer entre oito e dez semanas depois do padrão habitual, aumentando a concentração dos volumes em novembro e dezembro. Existe inclusive preocupação com possível congestionamento nos portos de Abidjan e San Pedro justamente próximo da entrada em vigor das novas exigências europeias.
Em tese, qualquer dificuldade adicional na regularização dos produtores ou na movimentação do cacau rastreável poderia reduzir temporariamente a disponibilidade de amêndoas aptas à comercialização e exportação.
Apesar dessa possibilidade, o comportamento negativo das bolsas nesta terça-feira mostra que o mercado ainda não está atribuindo prêmio relevante a esse fator.
A reação reforça que, neste momento, outros elementos — como disponibilidade física, estoques, início da safra africana e comportamento dos fundos — continuam exercendo maior influência sobre os preços internacionais.
Isso, entretanto, não elimina a possibilidade de reflexos mais adiante.
O verdadeiro teste ocorrerá quando a safra ganhar volume. Caso o atraso da colheita coincida com dificuldades de cadastramento, rastreabilidade, certificação da origem e concentração das chegadas aos portos, o mercado poderá começar a incorporar um prêmio adicional de risco.
Para a Costa do Marfim, portanto, o cartão obrigatório vai além de uma mudança administrativa. Ele representa uma tentativa de enquadrar uma cadeia formada por centenas de milhares de pequenos agricultores em um sistema formal de rastreabilidade compatível com as novas regras do comércio europeu.
O mercado ainda não precificou esse risco, mas as próximas semanas deverão mostrar se a transição será apenas burocrática ou se terá capacidade de interferir efetivamente no fluxo físico do maior produtor mundial de cacau.
Fonte: mercadodocacau


