A diferença entre os preços pagos aos produtores de cacau em Gana e Costa do Marfim voltou ao centro das atenções no início da safra 2026/27 e pode provocar distorções importantes no fluxo de amêndoas entre os dois países.
Em Gana, o regulador propôs elevar em cerca de 6% o preço pago aos produtores, dos atuais 2.587 cedis para 2.737 cedis por saca de 64 kg. A proposta ainda depende de aprovação oficial. Considerando o câmbio atual, o novo valor equivale a aproximadamente US$ 240 por saca, ou cerca de US$ 3,75 por kg.
Na Costa do Marfim, o preço oficial para a safra principal 2026/27 foi mantido em 1.200 francos CFA por kg, o equivalente a aproximadamente US$ 2,12 a US$ 2,13 por kg. Isso significa que, se a proposta ganesa for confirmada, a remuneração ao produtor em Gana ficará cerca de US$ 1,60 por kg acima da praticada no país vizinho.
A diferença é relevante porque Gana e Costa do Marfim compartilham uma extensa fronteira e já enfrentaram, em outras temporadas, movimentos informais de cacau em busca de melhores preços. Quanto maior a diferença de remuneração, maior tende a ser o incentivo para que parte das amêndoas produzidas na Costa do Marfim atravesse a fronteira e seja comercializada em Gana.
Esse movimento pode dificultar a leitura real da oferta da África Ocidental. Uma saída maior de cacau marfinense poderia reduzir artificialmente as chegadas oficiais aos portos da Costa do Marfim, ao mesmo tempo em que ampliaria os volumes registrados em Gana.
A diferença de quase US$ 1,60 por kg entre os preços de Gana e Costa do Marfim cria uma variável que merece atenção especial nesta safra. Se houver fluxo relevante de amêndoas através da fronteira, uma eventual redução das chegadas aos portos marfinenses não significará necessariamente uma queda equivalente da produção regional.
Esse é um detalhe importante para a interpretação do mercado: o cacau pode mudar de origem comercial sem desaparecer da oferta física da África Ocidental. Por outro lado, desvios mais intensos podem afetar compromissos de exportação, rastreabilidade e disponibilidade de cacau em cada país, aumentando a volatilidade das expectativas.
O cenário ganha ainda mais importância porque o preço marfinense de 1.200 CFA/kg representa forte redução em relação aos 2.800 CFA/kg praticados no início da safra anterior, aumentando a insatisfação entre produtores e elevando o risco de retenção ou desvio de produto.
Além da questão dos preços, a Costa do Marfim também enfrenta a implementação de um novo sistema obrigatório de rastreabilidade, com identificação dos produtores e vinculação das amêndoas a áreas geolocalizadas. Dificuldades operacionais já foram relatadas em algumas regiões, adicionando mais um elemento de atenção ao início da temporada.
Para o mercado internacional, o ponto central será acompanhar se a diferença de preços entre os dois maiores produtores da região começará a provocar mudanças efetivas no fluxo físico. Caso isso ocorra, os números oficiais de produção, comercialização e chegadas aos portos poderão exigir uma leitura mais cuidadosa ao longo dos próximos meses.
Fonte: mercadodocacau


