As exportações de cacau da Nigéria, avaliadas em cerca de US$ 700 milhões anuais, estão sob ameaça com a proximidade da entrada em vigor do Regulamento de Desmatamento da União Europeia (EUDR). A menos de quatro meses do prazo final — 30 de dezembro de 2025 — o país enfrenta o desafio de provar que sua produção é livre de desmatamento, legalmente reconhecida e totalmente rastreável, sob risco de perder acesso ao seu maior e mais lucrativo mercado.
O cacau é um dos pilares da diversificação econômica da Nigéria e fonte essencial de divisas não petrolíferas. Mais de 300 mil pequenos agricultores dependem diretamente da cadeia produtiva. Dados recentes do National Bureau of Statistics (NBS) mostram a relevância crescente do setor: no último trimestre de 2024, as exportações aumentaram 606%, saltando de N171 bilhões para N1,2 trilhão.
Com produção média anual de 320 mil toneladas, a Nigéria figura entre os quatro maiores produtores mundiais de cacau. A não conformidade com o EUDR, portanto, ameaça não apenas sua economia agrícola, mas também a estabilidade de milhares de famílias rurais.
Diante do risco, o governo federal intensificou esforços. Em Abuja, a Mesa Redonda Nigéria-UE sobre Conformidade com o EUDR reuniu autoridades, associações de produtores e exportadores para traçar um roteiro nacional de rastreabilidade e sustentabilidade.
Kingsley Uzoma, assessor especial do presidente para agronegócio, classificou o momento como decisivo:
“A Nigéria está pronta e resoluta para cumprir o EUDR. Trata-se de um imperativo econômico, ambiental e de desenvolvimento.”
Já Jumoke Oduwole, ministra da Indústria, Comércio e Investimento, destacou que a adequação às normas europeias se alinha à agenda “Nigéria Primeiro” do presidente Bola Tinubu:
“A conformidade não é opcional. Temos que apoiar nossos agricultores e investidores domésticos para manter o setor competitivo.”
O maior obstáculo é garantir a rastreabilidade das pequenas propriedades, espalhadas pelo território nacional. Para superar essa barreira, a Agência Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento Espacial (NASRDA) se comprometeu a disponibilizar imagens de satélite arquivadas desde 1975, provando que as fazendas de cacau não invadiram florestas protegidas.
Segundo o diretor-geral Matthew Adepoju:
“Com a tecnologia espacial, podemos concluir essa tarefa em três a quatro meses, apoiando diretamente nossos agricultores.”
A legalização fundiária representa outro entrave, uma vez que muitas terras não possuem registro formal nos governos estaduais. Além disso, lacunas de financiamento comprometem investimentos em modernização e conformidade. O Fundo de Desenvolvimento Agrícola da Nigéria (NADF) já opera sob pressão orçamentária, e especialistas defendem a criação de linhas de crédito específicas para o cacau, com condições mais flexíveis.
Apesar dos riscos, o EUDR também é visto como catalisador de transformação. Entre as oportunidades apontadas:
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Agregação de valor: maior incentivo ao processamento interno, produzindo chocolate, bebidas de cacau e manteiga de cacau, com geração de empregos e retenção de valor no país.
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Sustentabilidade agrícola: modernização de plantações envelhecidas e adoção de melhores práticas podem aumentar a produtividade em até 50%, reduzindo a pressão por abertura de novas áreas.
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Acesso a financiamento climático: a conformidade pode abrir portas para fundos internacionais e esquemas de crédito de carbono.
Empresas como a Tulip Cocoa Processing Limited já se adiantaram, fortalecendo sistemas de rastreabilidade e alinhando suas operações a padrões globais de sustentabilidade.
O destino das exportações de cacau da Nigéria será definido nos próximos meses. Se por um lado o EUDR representa uma ameaça existencial ao setor, por outro, pode impulsionar uma modernização estrutural capaz de consolidar o país como fornecedor competitivo e sustentável no mercado internacional.
O desafio agora é transformar a pressão regulatória em vantagem estratégica de longo prazo para o cacau nigeriano.
Fonte: mecadodocacau com informações businessamlive


