As compras de cacau na Costa do Marfim, maior produtora mundial da commodity, começaram de forma estagnada nesta nova temporada 2025/26. Fontes do setor relataram que o preço recorde pago ao produtor, combinado com a baixa qualidade dos estoques e a escassez de financiamento, está travando o fluxo comercial do grão nos principais portos do país.
Desde 1º de outubro, o governo marfinense elevou o preço garantido ao produtor para 2.800 francos CFA/kg — equivalente a cerca de US$ 5,05, o maior nível já registrado.
Embora a medida tenha sido celebrada por agricultores locais, o valor é considerado excepcionalmente alto por tradings e exportadores, que enfrentam dificuldades para manter a liquidez necessária às operações.
“Este ano, não houve financiamento, como costumava acontecer em agosto e setembro”, relatou um comprador sediado no porto de San Pedro, no sudoeste do país.
Segundo ele, os bancos estão relutantes em liberar crédito, temendo riscos de inadimplência diante da volatilidade do mercado e da incerteza sobre a qualidade dos grãos.
O cenário resultou em uma crise de liquidez que atinge diretamente os exportadores.
De acordo com um diretor comercial em Abidjan, o custo médio para transportar um caminhão com 35 a 40 toneladas de cacau varia entre 98 e 112 milhões de francos CFA (US$ 175 mil a US$ 200 mil).
Com esses custos e a escassez de financiamento, muitas empresas estão reduzindo as operações para preservar caixa e reforçar o controle de qualidade.
“Ninguém tem dinheiro para pagar cinco ou dez caminhões por dia, especialmente se houver um problema com a qualidade dos grãos”, explicou o executivo.
Cerca de 50.000 toneladas de grãos foram armazenadas antes do início oficial da nova safra, em expectativa ao reajuste de preços. No entanto, as indústrias moageiras estão rejeitando parte desses volumes, alegando grãos pequenos, baixo teor de gordura e alta acidez.
“Tenho 3.000 toneladas disponíveis e, até vendê-las, não posso comprar nada”, afirmou um comprador libanês independente em San Pedro.
Outro comprador da mesma região reconheceu a dificuldade, mas se mostrou otimista quanto a uma solução: misturar parte dos grãos antigos com os novos e ajustar preços para destravar o mercado.
Apesar dos entraves comerciais, fontes locais esperam uma produção semelhante à da temporada 2024/25, embora a primeira parte da colheita deva ser menor devido a condições climáticas irregulares.
A alternância entre períodos secos e chuvas intensas tem dificultado o desenvolvimento uniforme das vagens, especialmente nas zonas centrais do cinturão cacaueiro.
Enquanto isso, o setor observa com atenção os próximos movimentos do CCC (Cocoa and Coffee Council), que poderá ser forçado a revisar políticas de preço e crédito caso a paralisação comercial se prolongue.
Fonte: mercadodocacau com informações reuters


