O Fim da Era “Asset Light”? Por que a Reforma Tributária e a Inovação exigem que a Indústria retome o controle.

Durante as últimas duas décadas, frequentei salas de aula, conselhos e reuniões de diretoria onde um mantra era repetido à exaustão: “Foque no seu core business e terceirize todo o resto”. O conceito de Asset Light (ativos leves) reinou absoluto. Ter fábrica era “peso”, ter fornecedores era “agilidade”. 

Funcionou por um tempo. Mas o mundo mudou. E o Brasil está prestes a mudar ainda mais. A ruptura das cadeias logísticas globais nos últimos anos foi o primeiro sinal de alerta: quem dependia de um chip vindo da Ásia ou de um insumo crítico terceirizado viu sua produção parar e seu cliente ir embora. A “agilidade” da terceirização se transformou, da noite para o dia, na fragilidade da dependência. 

Mas há um segundo fator, silencioso e estrutural, que vai obrigar o empresário brasileiro a repensar essa lógica: a Reforma Tributária

O Brasil caminha para a adoção do IVA (Imposto sobre Valor Agregado). Para entender o impacto disso na estrutura da indústria, precisamos olhar para quem joga esse jogo há décadas. 

Por que gigantes como Siemens, Toshiba, Mitsubishi e Volkswagen mantêm estruturas pesadamente verticais em suas matrizes? Não é por apego ao passado. É por eficiência financeira e tributária. 

No modelo de IVA, o imposto incide sobre o valor que você adiciona ao produto. Quando você terceiriza uma etapa crítica da produção, você está pagando o lucro do seu fornecedor e os impostos embutidos na operação dele. Você “exporta” margem e eficiência. 

Ao verticalizar — trazendo etapas da cadeia para dentro de casa — a indústria captura a margem de lucro que antes ficava com terceiros. O imposto é pago sobre o resultado do seu grupo, otimizando o fluxo de caixa e a gestão de créditos tributários. No novo Brasil, controlar a cadeia de valor deixará de ser um “custo fixo” para ser uma vantagem competitiva de margem.

Porém, como industrial focado em inovação, vejo uma camada ainda mais crítica que a tributária: a Soberania Tecnológica. 

Na era da Indústria 4.0, verticalizar é uma estratégia de defesa de Propriedade Intelectual (IP). Se o componente que define a performance do seu produto é fabricado por um terceiro, ele detém os dados, a química e o know-how do seu sucesso. 

Um fornecedor estratégico hoje é um concorrente em potencial amanhã. Ao internalizar a produção de componentes vitais, você constrói um “fosso” defensivo ao redor do seu negócio. Você garante que a inovação aconteça no seu ritmo, e não no prazo de entrega do parceiro. 

Na Fralía, decidimos não apenas observar essa tendência, mas vivê-la. Entendemos que para entregar a tecnologia que prometemos na indústria (o conceito Cacau Tech), não poderíamos depender do desenvolvimento de terceiros. 

Estamos indo para o campo. Nosso projeto agro não é apenas sobre plantar cacau; é sobre controlar a genética e a qualidade desde a semente. Verticalizaremos para garantir que a tecnologia da ponta final (o alimento) seja suportada pela ciência na ponta inicial (o fruto). 

Não estou defendendo que a indústria volte a fabricar tudo, do parafuso à embalagem. Isso seria retrocesso. O convite à reflexão é outro: o que é crítico demais para estar na mão de outros? Minha resposta – O FUTURO! 

Seja pela eficiência fiscal do novo sistema tributário, seja pela proteção da sua tecnologia, a era da terceirização cega acabou. O industrial brasileiro precisa voltar a ter “chão de fábrica” estratégico. 

Precisamos perder o medo de ter ativos. Porque, no final do dia, quem controla a cadeia, controla o futuro. 

Matheus Pedrosa dos Reis é CEO da Fralía, Presidente do Conselho de Tecnologia e Inovação da FIEMG e Conselheiro Curador da FAPEMIG. Lidera a transformação da indústria através do conceito Cacau Tech. 

 

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