Traders de cacau na Costa do Marfim estão adiando as compras da próxima safra intermediária enquanto buscam preços mais baixos após a recente queda do mercado. Algumas grandes empresas decidiram postergar as aquisições a prazo da menor das duas safras anuais, que começa em abril, aguardando que o órgão regulador do setor reduza os valores praticados.
O regulador tenta comercializar o cacau com prêmios que variam de aproximadamente US$ 250 a US$ 475 por tonelada acima dos contratos futuros internacionais. O valor pago por processadoras e exportadores é composto pelo preço referenciado na bolsa de Nova York, a Intercontinental Exchange (ICE), acrescido de prêmios destinados a elevar a renda dos agricultores e refletir a qualidade das amêndoas marfinenses.
Entretanto, as margens foram fortemente comprimidas após os futuros do cacau recuarem cerca de 70% em relação ao recorde histórico atingido no fim de 2024. A combinação de demanda mais fraca e melhora na oferta global reduziu o poder de precificação dos exportadores, que passaram a pressionar o governo por apoio. O órgão regulador, por sua vez, resiste a vender o produto nos níveis pretendidos pelos compradores, aprofundando o impasse.
Como consequência, volumes significativos de cacau vêm se acumulando nos armazéns, enquanto alguns exportadores enfrentam dificuldades para honrar contratos a termo firmados em níveis mais elevados. Diante da situação, o governo interveio para auxiliar o Le Conseil du Café-Cacao (CCC) na negociação de um empréstimo destinado à compra de cerca de 100 mil toneladas de cacau junto aos agricultores, buscando aliviar a pressão sobre o mercado interno.
O cenário se torna ainda mais delicado porque parte relevante da safra ainda não foi comercializada. A safra intermediária responde por aproximadamente um quarto da produção anual do país e, tradicionalmente, é direcionada ao processamento local para sustentar a moagem doméstica. Traders e analistas projetam que a produção desta temporada fique entre 400 mil e 450 mil toneladas. Contudo, menos de 100 mil toneladas teriam sido vendidas até o momento, majoritariamente adquiridas por comerciantes locais.
O acúmulo de estoques e o atraso nas vendas elevam o risco de pressão adicional sobre os preços internacionais. Na quarta-feira, os futuros em Nova York atingiram o menor patamar desde novembro de 2023, refletindo o ambiente de fragilidade.
O impasse atual não é inédito. No final de 2023, grandes exportadores já buscavam renegociações diante do receio de que posições fixadas antecipadamente pudessem gerar perdas em caso de queda nas cotações. Agora, com o mercado em forte ajuste e prêmios sob questionamento, a cadeia de suprimentos marfinense volta a enfrentar um momento crítico, cujo desfecho poderá influenciar o equilíbrio global do cacau nos próximos meses.
Fonte: mercadodocacau com informações bloomberg


