Ajustes em Gana e pressão técnica derrubam o cacau ao menor nível recente

Por: Claudemir Zafalon

O mercado internacional do cacau atravessou uma semana de forte turbulência, acumulando desvalorização aproximada de US$ 640 por tonelada, em um movimento impulsionado por uma combinação de fatores fundamentais e técnicos que reforçaram o viés baixista nas bolsas. Notícias negativas provenientes da África Ocidental, o avanço consistente dos estoques certificados, indicadores gráficos desfavoráveis, vendas intensas por parte de fundos e especuladores e a pressão típica da rolagem do contrato março, que inicia o período de liquidação física em 23 de fevereiro, criaram um ambiente de forte aversão ao risco.

No campo fundamental, Gana, segundo maior produtor mundial da commodity, anunciou a redução do preço pago aos agricultores, ajustando-o aos valores praticados no mercado internacional na tentativa de estimular a demanda e reorganizar o fluxo interno de comercialização. O governo também apresentou um novo modelo de financiamento para a compra de grãos, buscando dar suporte ao setor em meio à expressiva retração da demanda global. Nos últimos doze meses, os preços internacionais do cacau recuaram cerca de 50%, atingindo mínimas próximas de US$ 3.700 por tonelada, cenário que tem dificultado o cumprimento de pagamentos aos produtores ganenses e ampliado o acúmulo de grãos não comercializados nos armazéns. O impacto social já é visível, com agricultores enfrentando dificuldades para manter despesas básicas, investir na manutenção das propriedades e planejar a próxima safra.

Paralelamente, os estoques certificados monitorados pela Intercontinental Exchange (ICE) nos portos dos Estados Unidos avançaram 28.954 sacas, totalizando 1.899.988 sacas. Esse crescimento reforça a percepção de oferta confortável no curto prazo e reduz a urgência compradora por parte da indústria, contribuindo para a manutenção da pressão sobre as cotações.

No pregão mais recente, o contrato maio encerrou a US$ 3.724 por tonelada, com baixa de US$ 132 no dia, após oscilar entre a mínima de US$ 3.698 e a máxima de US$ 3.846. O volume negociado foi expressivo, somando 55.413 contratos, enquanto o interesse em aberto aumentou para 163.182 contratos, sinalizando maior participação dos agentes no movimento de ajuste. Do ponto de vista técnico, o RSI do cacau recuou para a faixa de 25%, região considerada sobrevendida, o que pode abrir espaço para uma correção pontual. Ainda assim, o mercado permanece vulnerável enquanto não houver sinais concretos de recuperação da demanda global ou de eventuais riscos climáticos relevantes na África Ocidental. As resistências técnicas concentram-se na faixa entre US$ 4.000 e US$ 4.350, enquanto os suportes imediatos estão em US$ 3.700 e, em caso de rompimento, US$ 3.500.

No Brasil, o contrato futuro do dólar com vencimento em 27 de fevereiro de 2026 opera estável ao redor de R$ 5,22, oferecendo alguma previsibilidade cambial ao produtor nacional. Entretanto, a magnitude da queda nas bolsas internacionais impõe um ambiente de cautela para toda a cadeia produtiva. O momento é de elevada volatilidade e de ajustes estruturais importantes, exigindo prudência nas decisões comerciais e atenção redobrada aos próximos desdobramentos do cenário global.

Fonte: mercadodocacau

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