Como compreender a cadeia Cacau–Chocolate–Floresta?

Por Paulo Peixinho, produtor de cacau

Sapo não pula por boniteza,

mas porém por precisão.

Guimarães Rosa.

Não existe solução simples para problemas complexos.

A cadeia Cacau–Chocolate–Floresta não pode sercompreendida, muito menos reorganizada, por meio de medidas pontuais, paliativas ou exclusivamente políticas. Trata-se de um sistema econômico, institucional, ambiental e social profundamente interligado, cujas disfunções acumuladas ao longo de décadas não se resolvem com decretos.

Nos últimos dois anos (2023–2025), ao tentar compreender meu próprio negócio para além da porteira, como produtor e observador empírico da realidade, tenho me debruçado sobre o estudo dessa cadeia. O esforço é sair da percepção fragmentada e buscar uma visão sistêmica.

Utilizo como marco teórico a Nova Economia Institucional, especialmente as contribuições de Ronald Coase, Douglass North e Oliver Williamson. No Brasil, dialogo com as reflexões de DécioZylbersztajn, Rachel Sztajn, Marcos Fava Neves.

A mensagem central de Coase permanece atual: economistas e cientistas sociais devem se preocupar com o mundo como ele é — e não como, para alguns teóricos, deveria ser. Isso implica estudar custos de transação reais, estruturas de governança concretas, contratos imperfeitos, assimetrias de informação e incentivos desalinhados.

Aplicado à cadeia cacau–chocolate–floresta, isso significa reconhecer a fragmentação produtiva na base agrícola, a concentração industrial e comercial nos elos posteriores, a assimetria de informação entre produtor e indústria, a captura de valor fora da porteira e a desconexão entre discurso ambiental e estrutura de incentivos econômicos.

Se a floresta em pé é um ativo estratégico, ela precisa estar integrada ao modelo de negócios, e nãoapenas ao marketing. Se o produtor é guardião do território, precisa ter remuneração compatível com essa função econômica e ambiental.

A alta estrutural dos preços internacionais do cacau expôs fragilidades globais e revelou a centralidade da oferta primária. Pela primeira vez em décadas, o produtor voltou ao centro do debate econômico. Esse contexto cria uma janela histórica para repensar a arquitetura institucional da cadeia.

As universidades da região cacaueira — especialmente no Sul da Bahia, Pará e Amazônia — têm diante de si uma tarefa histórica: estudar, modelar e propor a construção da nova economia do cacau para o século XXI.

Não se trata apenas de produzir mais. Trata-se de reorganizar governança, contratos, distribuição de valor e incentivos.

A cadeia agroalimentar Cacau–Chocolate–Florestanão é apenas um arranjo produtivo. É um sistema institucional complexo. E sistemas complexos exigem pensamento complexo.

Fonte: mercadodocacau

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