A Costa do Marfim, maior produtora mundial de cacau, anunciou uma forte redução no preço pago aos produtores, em uma tentativa de ajustar o mercado interno à rápida queda das cotações internacionais da commodity. A decisão foi divulgada na quarta-feira (04/03), pelo ministro da Agricultura, Bruno Koné.
O novo preço mínimo pago ao produtor foi fixado em 1.200 francos CFA por quilo, equivalente a cerca de US$ 2, representando queda próxima de 60% em relação ao valor anterior. O ajuste ocorre em meio a um cenário de recuo acentuado dos preços globais do cacau e aumento da oferta no mercado internacional.
Segundo o ministro, a medida foi necessária para alinhar o mercado interno marfinense à realidade global. “O preço do cacau no mercado internacional está nos forçando a fazer um ajuste”, afirmou Koné ao anunciar a decisão.
Tradicionalmente, o governo marfinense define o preço pago aos agricultores duas vezes por ano, mas desta vez o anúncio foi feito cerca de um mês antes do calendário habitual, refletindo a urgência da situação enfrentada pelo setor.
A redução ocorre após um período de extrema volatilidade no mercado mundial de cacau. Em 2024, os preços chegaram a atingir níveis históricos próximos de US$ 12.000 por tonelada, impulsionados por déficits de produção e problemas climáticos na África Ocidental.
Desde então, no entanto, o mercado entrou em um movimento de correção significativa. Atualmente, as cotações giram em torno de US$ 2.900 por tonelada, refletindo aumento da oferta global e enfraquecimento da demanda por derivados, especialmente em mercados consumidores tradicionais.
Essa forte queda tornou o cacau marfinense muito mais caro que os preços praticados no mercado internacional, o que passou a dificultar as exportações e a reduzir o interesse dos compradores.
O setor de cacau possui enorme importância econômica e social para o país. A cadeia responde por cerca de 14% do Produto Interno Bruto marfinense, e aproximadamente cinco milhões de pessoas dependem diretamente da atividade para sobreviver.
A redução do preço pago aos agricultores, portanto, tende a gerar forte impacto nas comunidades produtoras.
O líder sindical Yao Yao, produtor baseado na cidade de Duekoué, manifestou frustração com a decisão do governo. Segundo ele, os agricultores são os principais prejudicados pela mudança. “Sinceramente, não estamos felizes. Nós, os produtores, somos os que vamos perder nessa situação”, declarou à agência AFP.
Nos últimos meses, exportadores vinham postergando compras de cacau marfinense, uma vez que o preço interno estava muito acima do valor praticado no mercado internacional. Em alguns casos, compradores chegaram a oferecer valores menores em troca de pagamento imediato, segundo fontes do setor.
Diante da dificuldade de comercialização, o Conselho de Café e Cacau do país havia anunciado em janeiro que compraria dezenas de milhares de toneladas acumuladas nos armazéns, mantendo temporariamente o preço recorde pago aos produtores.
Esse valor havia sido estabelecido em 2.800 francos CFA por quilo no início da safra, anúncio feito pessoalmente pelo presidente Alassane Ouattara pouco antes de sua reeleição.
Movimento semelhante em Gana
A decisão da Costa do Marfim ocorre poucos dias após medida semelhante adotada por Gana, segundo maior produtor mundial de cacau. Em meados de fevereiro, o país também anunciou redução de cerca de 30% no preço pago aos produtores, refletindo o mesmo cenário de forte correção nas cotações internacionais.
Os ajustes sucessivos nos principais países produtores evidenciam a nova realidade do mercado global de cacau, que passou rapidamente de um cenário de escassez e preços recordes para um ambiente de maior oferta e pressão sobre as cotações, exigindo adaptações em toda a cadeia produtiva.
Fonte: mercadodocacau com informações áfricanews


