Uma medida provisória publicada pelo Governo Federal na última quinta-feira (12) gerou preocupação entre representantes da indústria do cacau no Brasil. A alteração nas regras do regime de drawback , instrumento utilizado para estimular exportações, pode impactar diretamente a competitividade do setor, segundo avaliação da Associação Nacional das Indústrias Processadoras de Cacau (AIPC).
De acordo com a entidade, a decisão foi tomada sem diálogo prévio com a indústria e parte de um diagnóstico considerado equivocado sobre o funcionamento do mercado de cacau. Para a associação, a medida não resolve o problema atual do preço do produto, que é definido principalmente pela dinâmica global de oferta e demanda.
Importações são parte essencial da cadeia
O Brasil ainda não é autossuficiente na produção de cacau. Para manter o funcionamento das plantas industriais e cumprir contratos internacionais, as empresas precisam complementar a oferta nacional com a importação de amêndoas.
Segundo a AIPC, essas importações não competem com o cacau brasileiro. Pelo contrário: elas permitem que o país processe e exporte derivados como manteiga, pó e líquor de cacau, produtos com maior valor agregado.
Dados do próprio governo indicam que cerca de 22% das amêndoas processadas no Brasil são importadas. Desse total, 99% das operações estão vinculadas ao regime de drawback, mecanismo que permite importar insumos sem incidência de impostos quando eles são utilizados na produção de bens destinados à exportação.
Redução do prazo preocupa setor
A principal mudança da medida provisória é a redução do prazo do regime de drawback, que passa de até dois anos para apenas seis meses. Para a indústria, essa alteração cria um desalinhamento entre a regra fiscal e o ciclo real do comércio internacional de derivados de cacau.
Estudos do setor mostram que 92% dos contratos de exportação possuem prazo superior a 180 dias, considerando etapas como negociação internacional, importação da matéria-prima, processamento industrial e entrega do produto final.
Na prática, a nova regra pode inviabilizar parte significativa das operações de exportação realizadas atualmente pela indústria brasileira.
Possíveis impactos econômicos
Caso as exportações diminuam, o efeito pode atingir toda a cadeia produtiva do cacau. A indústria alerta que a redução no volume exportado tende a provocar:
• menor processamento de cacau no país
• aumento da ociosidade nas fábricas
• redução da demanda por amêndoas nacionais
• perda de empregos no setor
Hoje, a indústria brasileira possui capacidade instalada para processar cerca de 275 mil toneladas por ano, mas processa aproximadamente 195 mil toneladas, operando com cerca de 30% de ociosidade.
Projeções do setor indicam que, em um período de cinco anos, a mudança pode resultar em perdas de até R$ 3,5 bilhões em exportações de derivados de cacau.
Preocupação institucional
Outro ponto destacado pela indústria é o precedente criado pela medida. O regime de drawback existe há mais de seis décadas e é utilizado por diversos setores da economia como forma de garantir competitividade internacional e neutralidade tributária.
Segundo a AIPC, modificar o mecanismo de forma direcionada a um único produto pode gerar insegurança para investimentos industriais e afetar a previsibilidade das regras de comércio exterior.
Caminhos para fortalecer o setor
Para a entidade, o fortalecimento da cadeia do cacau depende de políticas estruturais capazes de ampliar a produção nacional, aumentar a produtividade e fortalecer a indústria processadora, responsável por gerar valor agregado, empregos e exportações.
A associação afirma que permanece aberta ao diálogo com o governo e o Congresso Nacional para buscar soluções que preservem a competitividade da indústria e o equilíbrio de toda a cadeia produtiva do cacau no Brasil
Fonte: mercadodocacau com AIPC



4 Comments
Com o valor que está sendo pago hoje no quilo do cacau está inviável para o agricultor continuar produzindo cacau. Pois a lavoura não se sustenta.
Complicado, O pequeno produtor é quem mais sofre com essas decisões
A ocorrência da associação é válida, pois o setor precisa continuar até mesmo aumentando a moagem, mas nem governo e nem associação e até mesmo as indústrias não planejaram quando os preços foram lá em cima, onde poderiam segurar capital, mantendo preços médios satisfatórios na casa dos 2.000 reais onde estaria de bom tamanho e agora com a baixa do preço estaria com verba para repor na matéria prima ” produtor rural “. Assim não avaria impactos em nenhum setor .
As indrustrias e as moageiras agora estão preocupadas , elas agora sentiram também o que estamos passando , determinam preços e isso impactou . É o elo mais forte . Dizem e temos que aceitar sobre o que colhemos , produzimos , para com isso determinar o que querem importar e escolhem o período para diminuir o preço .