Logo de saída, três impactos já se impõem sobre o agro global e, por consequência, sobre o produtor brasileiro: disparada nos preços de fertilizantes, encarecimento imediato da energia (especialmente o diesel) e risco crescente de ruptura logística em rotas-chave como o Estreito de Ormuz.
“Com o início do conflito bélico, o cenário mudou. Aquela região é uma importante produtora de petróleo, o que gera impactos diretos nos nitrogenados e na cadeia de enxofre”, afirma Monteiro.
O executivo comanda uma das maiores fabricantes de fertilizantes no mundo e que está no 16º lugar na Lista Forbes Agro100 2025 , com faturamento de R$ 24,15 bilhões em 2024 no Brasil.
O choque já contratado e ainda incompleto
A leitura de Monteiro ajuda a entender o ponto de partida do mercado que já estava tensionado antes da guerra. Juros elevados, crédito mais escasso e aumento de recuperações judiciais no agro limitavam a capacidade de compra do produtor.
Nesse ambiente, o choque de preços encarece o insumo e também encontra um produtor financeiramente mais exposto. Por exemplo, o enxofre, base dos fertilizantes fosfatados, ilustra bem esse movimento. Em poucos anos, saiu de cerca de US$ 100 (R$ 500 na cotação atual) para US$ 500 (R$ 2.500) e, com a guerra avançou para US$ 750 (R$ 3.800).
“Atualmente, cerca de 45% a 50% dos agricultores brasileiros já compraram seu adubo para a safra que começa em julho”, diz Monteiro.
“Os outros 50% a 55% estão postergando a decisão porque os preços estão elevados. Nossa recomendação é que, embora a decisão do produtor seja soberana, deixar tudo para o final pode gerar gargalos logísticos. É prudente começar as compras paulatinamente,” diz o executivo.
Mas há um detalhe relevante, porque esse aumento ainda não foi totalmente repassado ao mercado. Ou seja, parte da pressão de custos ainda está “represada” na cadeia.
É nesse ponto que a análise de Felippe Serigati ganha peso ao deslocar o foco do imediato para o estrutural e ao introduzir uma diferenciação fundamental entre regiões. “O agro brasileiro é muito heterogêneo”, afirma.
Segundo ele, o impacto direto no Brasil, neste momento, é limitado quando se olha para os grandes números de grãos. A safra de verão já foi colhida e a segunda safra, em grande parte já teve o fertilizante aplicado.
Mas isso não significa ausência de risco, apenas deslocamento no tempo e na intensidade. “O fertilizante da safra principal já foi utilizado. Missão cumprida”, diz.
O problema, segundo Serigati, está em dois pontos mais sensíveis como as culturas permanentes, como o café e a laranja, e produtores que precisam comprar agora, como trigo e hortifrúti . Esses já enfrentam preços elevados e pouca margem de negociação. “Quem precisa ir ao mercado agora está com a faca no pescoço”, afirma.
Mas o ponto mais relevante da análise do economista está fora do Brasil. O Hemisfério Norte entra no momento crítico de plantio e, diferentemente do produtor brasileiro não pode esperar. “Eles têm de plantar. A janela deles é bem mais estreita que a nossa”, explica.
É exatamente isso que começa a aparecer nos dados do USDA com a redução na área de milho, cultura intensiva em fertilizantes, e migração para soja. Esse movimento confirma a leitura de Serigati de que o choque de fertilizantes não é apenas um problema de custo, mas de decisão produtiva e, portanto, de oferta global. “Se os custos sobem, o produtor reduz tecnologia ou área. E isso significa safra menor”, resume.
O efeito dominó: de insumo a preço de commodity
Essa mudança nos Estados Unidos abre um segundo canal de impacto mais indireto, no entanto potencialmente mais relevante para o Brasil.
Com menor uso de tecnologia ou redução de área, a produção global tende a cair, especialmente em culturas como milho, altamente dependentes de fertilizantes nitrogenados. “Isso faz com que os preços dos grãos operem em patamares mais elevados”, afirma Serigati.
Ou seja, o mesmo choque que pressiona custos pode elevar receitas. Mas esse “ganho” vem acompanhado de maior volatilidade e incerteza.
O combustível: o impacto que chega primeiro
Outro ponto destacado por Serigati e que ganha protagonismo na análise é o papel da energia. “O canal mais imediato é o custo do combustível. Esse é rápido e pega todo mundo”, afirma.
Diferentemente do fertilizante, cujo impacto depende do ciclo produtivo, o diesel afeta imediatamente o frete, a operação e a logística . Mais do que isso, o economista alerta para o risco de políticas que tentem amortecer artificialmente esse choque. “Tentar mascarar isso só transforma um choque de preço em um choque fiscal”, diz.
Quando a crise vira ruptura de sistema
Se Serigati organiza os canais econômicos, a visão de Ingo Plöger amplia a análise para o funcionamento do sistema produtivo. “A situação está crítica”, afirma.
Para ele, o risco não está apenas no preço ou na disponibilidade isolada de insumos, mas na quebra de um modelo produtivo que depende de precisão logística.
A agricultura tropical brasileira opera em ciclos contínuos, com duas a três safras por ano. Isso exige previsibilidade e fluxo constante de insumos. “Você já calcula o que precisa em cada mês. Quando há interrupção, o sistema trava”, explica.
Nesse modelo, o tempo é determinante. “Se você aguardar seis semanas a mais, a safra já foi”, afirma. A fala reforça um ponto central de que não se trata apenas de pagar mais caro, mas de ter o produto no momento certo.
O risco financeiro entra no jogo
Plöger também introduz uma dimensão adicional que é o risco financeiro. Com custos em alta, preços de commodities pressionados e crédito mais restrito, o produtor perde capacidade de absorver choques. “O primeiro problema em uma emergência é o estado financeiro”, afirma.
O cenário se agrava com juros elevados e retração do crédito privado, ampliando a dependência de políticas públicas. Para ele, a manutenção de taxas de juros elevadas (14,75%) apenas asfixia o produtor sem conter a inflação. Além disso, outra medida poderia ser a antecipação do anúncio do Plano Safra.
“O sinal não está mais no amarelo. Está no vermelho piscando. O Plano Safra, que normalmente é anunciado entre abril e maio, precisa ser antecipado. O governo precisa dar confiança ao produtor agora”, diz o presidente da ABAG.
Um choque que pode durar anos
A duração do conflito é a principal variável desta equação que segue em aberto. No curto prazo, o Brasil ainda conta com estoques de fertilizantes de dois a três meses, no caso da Mosaic, segundo Monteiro. Mas essa margem é curta diante de um cenário geopolítico imprevisível.
Mesmo com uma eventual trégua, os efeitos tendem a se prolongar. Infraestruturas energéticas afetadas no meio deste conflito podem levar anos para serem reconstruídas, o que mantém pressionados os custos de fertilizantes e energia.
Segundo Serigati, a destruição de infraestruturas de gás natural no Oriente Médio exigirá de três a cinco anos para recuperação total. “Portanto, o recado ao produtor neste momento é cautela e gestão rigorosa de custos”, diz o especialista do FGV Agro.
Entre estratégia e vulnerabilidade
O que emerge das diferentes leituras é um diagnóstico mais amplo de que o agro global já começou a se ajustar, mas sob forte incerteza. Nos Estados Unidos, a resposta veio via mudança de plantio. No Brasil, a decisão ainda está em aberto, entre comprar caro ou correr o risco de escassez.
“O agricultor deve olhar a gestão de custos detalhadamente, mas deve tomar cuidado para que essa redução não impacte a produtividade, que é o que gera caixa”, diz Monteiro. “Reduzir fertilizantes, bioinsumos e defensivos pode ser perverso, porque diminui o fluxo de caixa final.”
E, no pano de fundo, permanece uma fragilidade estrutural do próprio país no sistema financeiro e da política de crédito. “Precisamos que o governo ligue o ‘modo de emergência’”, diz Plöger. “O botão de emergência já foi acionado por todo mundo.” A guerra, nesse sentido, não cria o problema, apenas o torna incontornável.
Fonte: Forbes