A incorporação de tecnologia ao campo tem redefinido padrões de produtividade e sustentabilidade em plantações de cacau no sul da Bahia. Na Fazenda Vila Opa, localizada no município de Taperoá, o produtor e engenheiro agrônomo Roberto Lessa vem apostando em inovação para construir um modelo de produção mais eficiente, escalável e alinhado às exigências do mercado global. Uso de sensores, análise de dados por inteligência artificial, mecanização e controle por celular são comuns na propriedade.
A operação que combina mecanização, bioinsumos, agricultura de precisão e sistemas agroflorestais. Os resultados já alcançam níveis de produtividade muito acima da média nacional. A fazenda nasceu há pouco mais de cinco anos com o propósito de aplicar, na prática, todo o conhecimento acumulado ao longo de três décadas de atuação de Lessa no setor. “Se fosse para fazer mais do mesmo, eu não entraria. A conta não fecha nem em produtividade, nem em custo”, afirma.
A propriedade tem 148 hectares, sendo 30 já cultivados com cacau em sistema agroflorestal. A meta é ampliar a área cultivada em mais 18 hectares em 2026 e outros 25 hectares em 2027. Com isso, cerca de metade da área da fazenda será destinada à agricultura. O restante irá abrigar matas de preservação.
A decisão de estruturar a propriedade com base em um masterplan foi determinante para viabilizar a mecanização, ainda pouco comum na cultura do cacau. Desde o início, o projeto considerou relevo, logística interna e organização espacial para permitir o uso de máquinas em diferentes etapas da produção. Lessa prefere não revelar o valor do investimento.
A aposta em tecnologia ocorre em um momento de mudanças no mercado internacional. Após a disparada dos preços do cacau em 2024, impulsionada por problemas climáticos na África, o setor passou por ajustes, com impacto na indústria e nos produtores. Nesse contexto, eficiência produtiva e redução de custos tornam-se fatores determinantes para a competitividade.
Mecanização como vetor de eficiência
Na Vila Opa, praticamente todas as etapas operacionais já contam com algum nível de mecanização, desde a adubação, roçagem, transporte interno e até processos pós-colheita. Um dos destaques é o sistema automatizado de fermentação, que substitui o trabalho manual de transferência das amêndoas entre caixas.
“Hoje, com a mecanização, conseguimos reduzir em até 45% o custo operacional. E mais importante é que conseguimos fazer as atividades no tempo certo”, explica o produtor.
A diferença é decisiva, especialmente em uma região com alta incidência de chuvas. Segundo Lessa, janelas curtas de sol exigem agilidade para operações como pulverização. “Se eu dependesse apenas de mão de obra, levaria até 15 dias para cobrir a área. Com tecnologia, faço isso em três dias”, diz.
Outro avanço está na automação da secagem, com controle remoto via celular de estufas, ventilação e cortinas, além da implantação de robôs para movimentação das amêndoas.
A produtividade também chama atenção. Enquanto a média brasileira gira em torno de 482 kg de amêndoas por hectare, a fazenda alcança entre 2.000 kg e 3.300 kg por hectare, resultado de manejo intensivo, monitoramento constante e uso de tecnologia.
Lessa buscou referências percorrendo diferentes regiões e culturas agrícolas em busca de soluções já consolidadas no agronegócio, adaptando práticas ao contexto do cacau. Entre os principais polos visitados está a fruticultura irrigada do Vale do São Francisco, reconhecida pelo uso intensivo de tecnologia, automação e agricultura de precisão. “Não é só olhar para o cacau. Outras culturas, como uva, manga e café, têm muito a ensinar. A gente observa o que funciona e adapta”, destaca.
Bioinsumos e sustentabilidade no centro da estratégia
Além da mecanização, a fazenda investe na produção própria de bioinsumos, com uma unidade instalada dentro da propriedade. Fungos e bactérias como Trichoderma e Bacillus subtilis são cultivados em biorreatores e utilizados no combate a pragas e doenças. “A gente consegue reduzir o custo em até 80% e ainda aumentar a eficiência do manejo. Em dias de chuva, por exemplo, os bioinsumos funcionam melhor que os químicos”, afirma Lessa.
Atualmente, cerca de 15% da área já utiliza insumos biológicos, mas a meta é atingir 100% nos próximos anos, com a ampliação da estrutura produtiva.
Outro pilar do modelo adotado na Vila Opa é o sistema agroflorestal, que combina as culturas de cacau, açaí e jequitibá-rosa na mesma área. A proposta é criar sinergia entre as culturas, melhorar o microclima e diversificar as fontes de receita.
Hoje, o cacau representa cerca de 70% do faturamento da fazenda, enquanto o açaí responde por 30%. Já o jequitibá cumpre função estratégica, oferecendo sombreamento e contribuindo para o equilíbrio ambiental do sistema.
Agricultura de precisão e valorização de mão de obra
O próximo passo da Vila Opa é a implantação de um sistema de irrigação por gotejamento, integrado a sensores de solo e controlado por celular. A tecnologia permitirá uma gestão mais eficiente da água e a aplicação de biofertilizantes via fertirrigação.
Também está prevista a adoção de drones para pulverização e monitoramento, ampliando ainda mais a precisão das operações no campo.
Apesar da forte presença tecnológica, o modelo não elimina a importância da mão de obra, redefinindo o seu papel. Para o produtor, a mecanização permite que os trabalhadores deixem atividades braçais e passem a atuar em funções mais qualificadas.
“Eu não quero contratar só braços e pernas. Quero pessoas pensando, operando tecnologia. Isso atrai jovens e valoriza o trabalho no campo”, afirma.
A estratégia tem surtido efeito. A fazenda vem se tornando um polo de interesse para estudantes, pesquisadores e produtores que buscam entender como a inovação pode transformar a cacauicultura.
Fonte: movimentoeconomico


