Atrasos de pagamento travam colheita em Gana e expõem fragilidade estrutural do setor cacaueiro

A safra intermediária de cacau em Gana, que vinha sendo impulsionada por condições climáticas favoráveis e bons rendimentos nas lavouras, enfrenta um obstáculo crítico: a falta de liquidez no campo. Agricultores do segundo maior produtor mundial relatam atrasos de até seis meses nos pagamentos, situação que já compromete diretamente o ritmo de colheita e ameaça reduzir o potencial produtivo da temporada.

De acordo com relatos obtidos pela Reuters, produtores afirmam que os atrasos têm drenado completamente seus recursos operacionais. Sem capital disponível, muitos não conseguem contratar mão de obra nem arcar com custos básicos da colheita, justamente em um momento em que a produção apresenta recuperação.

“Tenho cacau nas árvores que precisa ser colhido, mas não há dinheiro nem para isso”, afirmou Theophilus Tamakloe, vice-presidente da Associação das Cooperativas de Cacau de Gana. Segundo ele, a situação é generalizada entre os mais de 340 mil membros da entidade, refletindo um problema sistêmico na cadeia de pagamentos.

A crise levou produtores a adotarem medidas mais rígidas na comercialização. O próprio Tamakloe relata possuir quase uma tonelada de cacau armazenada, recusando-se a entregar a compradores sem pagamento imediato. “Só vendo para quem paga na hora”, destacou, em referência às cerca de 65 LBCs (Licensed Buying Companies) que operam no país.

Outro produtor, Abdulai Adoswin, aponta que, apesar de já ter colhido 300 sacas nesta temporada, contra 190 no mesmo período do ano passado, o aumento da produção pode não se traduzir em renda se os pagamentos não forem regularizados antes do fim da safra, previsto entre agosto e setembro.

Do lado institucional, o COCOBOD afirma que vem liberando recursos desde novembro para que as LBCs quitem suas pendências com os produtores. No entanto, agentes do próprio sistema de compra contestam essa versão, alegando que ainda aguardam pagamentos por grãos já entregues e comercializados.

Uma fonte ligada a uma LBC revelou que, apesar de a COCOBOD já ter vendido praticamente todo o cacau da safra 2025/26, os repasses financeiros não chegaram aos compradores intermediários. “Ainda estamos esperando receber. Não sabemos o que está acontecendo”, afirmou, evidenciando o desalinhamento dentro da cadeia.

O pano de fundo dessa crise é uma prolongada escassez de liquidez no setor cacaueiro ganês, agravada por desafios estruturais. Nos últimos anos, o país enfrentou queda na produção devido a doenças, envelhecimento dos cacaueiros, avanço da mineração ilegal e irregularidades climáticas. Como consequência, o governo foi obrigado a reduzir significativamente o preço fixo pago aos produtores.

Os impactos já aparecem nos números macroeconômicos. Dados do Banco de Gana indicam que as exportações de cacau recuaram cerca de 20% em termos anuais, atingindo 956,3 milhões de cedis (aproximadamente US$ 86 milhões) em fevereiro.

Embora a safra intermediária atual apresente sinais de recuperação produtiva, esse avanço ocorre em um ambiente de mercado adverso. Os preços internacionais do cacau acumulam queda próxima de 75% em relação aos picos históricos registrados no final de 2024, reduzindo ainda mais a capacidade de geração de caixa ao longo da cadeia.

Fonte: mercadodocacau com informações reuters

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