Por: Claudemir Zafalon
O mercado internacional de cacau voltou a registrar forte volatilidade, com os contratos futuros em Nova York disparando diante de uma combinação de fatores climáticos e geopolíticos que reacenderam o apetite especulativo dos investidores. O contrato julho encerrou o pregão de ontem a US$ 4.709 por tonelada, com expressiva alta de US$ 527, alcançando o maior nível desde 21 de janeiro.
A sessão foi marcada por extrema volatilidade, com os preços oscilando entre a mínima de US$ 4.311 e a máxima de US$ 4.777, refletindo a sensibilidade do mercado diante da crescente percepção de risco sobre a oferta global.
O principal gatilho da movimentação voltou a ser o clima. As preocupações com a possível formação do fenômeno El Niño ganharam força após a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) estimar 61% de probabilidade de desenvolvimento do fenômeno entre maio e julho, com possibilidade de persistência até o fim do ano. O dado mais inquietante para o mercado é a estimativa de cerca de 25% de chance de ocorrência de um “Super El Niño”, cenário historicamente associado a eventos climáticos extremos.
No mercado de cacau, esse risco tem peso significativo. A África Ocidental, especialmente Costa do Marfim e Gana, responde por mais de 60% da produção global da commodity. Qualquer ameaça de irregularidade climática nessas origens rapidamente se traduz em prêmio de risco nos contratos futuros, especialmente em um momento em que o mercado vinha operando relativamente acomodado diante das expectativas de superávit para a próxima temporada.
Além do clima, o cenário geopolítico também adiciona tensão aos mercados globais. Apesar do cessar-fogo entre Estados Unidos e Irã, descrito pelo presidente norte-americano como estando em “estado crítico”, o ambiente ainda inspira cautela. O aumento da volatilidade no petróleo e a dificuldade dos mercados acionários em ignorar os riscos renovados no Oriente Médio ajudam a reforçar movimentos defensivos e elevam a sensibilidade dos fundos em commodities.
Os indicadores técnicos mostram um mercado em forte aceleração. O RSI (Índice de Força Relativa) do contrato julho já opera em 70%, nível tradicionalmente interpretado como zona de sobrecompra. Isso sugere que, embora o momentum siga positivo no curto prazo, a intensidade da alta pode abrir espaço para correções técnicas caso novos fundamentos não sustentem a escalada.
O volume negociado confirma a agressividade do movimento. Foram 31.729 negócios, totalizando 74.022 contratos, número robusto que evidencia forte participação especulativa. O interesse em aberto permaneceu praticamente estável em 193.752 contratos, indicando que parte relevante do movimento pode ter sido alimentada por recomposição de posições e cobertura de vendidos.
Os dados mais recentes do CFTC reforçam essa leitura. No período entre 28 de abril e 5 de maio, os fundos ampliaram suas apostas baixistas, vendendo 3.049 contratos adicionais, elevando a posição líquida vendida para 16.836 contratos. Esse posicionamento pode se tornar combustível adicional para novas altas, caso o mercado continue pressionado e force movimentos de short covering.
Do lado físico, os estoques certificados monitorados pela ICE nos portos dos Estados Unidos recuaram 2.209 sacas, para 2.663.997 sacas, uma queda modesta, mas que contribui marginalmente para a percepção de menor folga imediata na oferta disponível.
No processo de liquidação do contrato julho, houve ontem entrega física de 50 contratos pela StoneX, recebidos pela SocGen, elevando o acumulado para 625 contratos. Com o vencimento se aproximando, esses fluxos costumam atrair atenção adicional dos participantes.
No câmbio, o contrato futuro do real com vencimento em junho operava estável nesta manhã, próximo de R$ 4,92 por dólar, limitando, por ora, impactos adicionais sobre a formação de preços domésticos.
Fonte: mercadodocacau


