Em um momento em que a produção mundial enfrenta forte pressão climática, especialmente na África Ocidental, a startup brasileira Belterra Agroflorestas anunciou um aporte de R$ 75 milhões para acelerar sua expansão no cultivo de cacau em sistemas agroflorestais, com a ambição de se tornar a maior produtora da commodity no país.
O movimento ocorre em meio a uma profunda reconfiguração do mercado internacional. A crise estrutural enfrentada por Costa do Marfim e Gana — responsáveis por mais de 60% da produção global —, marcada por eventos climáticos extremos, envelhecimento das lavouras, doenças fitossanitárias e dificuldades financeiras dos produtores, reacendeu discussões sobre diversificação geográfica da oferta mundial de cacau.
Nesse contexto, o Brasil surge novamente como um mercado estratégico.
A proposta da Belterra combina produção agrícola em larga escala com recuperação ambiental. O plano prevê o plantio de aproximadamente 15 mil hectares de cacau em sistemas agroflorestais, principalmente na Bahia e no Pará, estados que concentram o protagonismo da cacauicultura brasileira. O modelo integra o cultivo do cacau com espécies nativas, criando ambientes produtivos mais resilientes às mudanças climáticas, com potencial de regeneração de áreas degradadas e geração adicional de receitas com créditos de carbono.
Atualmente, a empresa já opera cerca de 2.500 hectares dentro desse conceito e agora pretende acelerar o crescimento por meio da criação de sociedades de propósito específico (SPEs), estrutura desenhada para atrair diferentes perfis de investidores.
O novo aporte foi liderado pela gestora Bold.t, com participação da MOV, Rise Ventures e da fundação alemã Ecosia, conhecida internacionalmente por financiar iniciativas de reflorestamento por meio de seu mecanismo de busca digital. A operação marca, inclusive, a primeira participação da Ecosia em um investimento de equity no setor.
Além desse capital, a Belterra já conta com uma linha de financiamento robusta, incluindo R$ 100 milhões do Fundo Clima, via BNDES, além de R$ 20 milhões do Amazon Biodiversity Fund (ABF).
Segundo a companhia, aproximadamente 85% da receita futura deverá vir diretamente da comercialização agrícola, com destaque para o cacau, enquanto os outros 15% devem ser originados da monetização de créditos de carbono associados à recuperação ambiental.
A estratégia reflete uma tendência crescente no agronegócio global: unir produção de commodities com compromissos ambientais mensuráveis.
Mais do que uma aposta empresarial, o movimento evidencia como o mercado internacional começa a enxergar o Brasil como uma alternativa concreta para ampliar a segurança da oferta global de cacau.
Com os preços internacionais ainda sensíveis a riscos climáticos e produtivos na África, projetos estruturados, escaláveis e com apelo ESG tendem a ganhar relevância crescente junto a investidores e compradores internacionais.
Ainda assim, especialistas do setor ponderam que transformar o Brasil em um player de grande escala exige enfrentar desafios importantes, como custo de implantação, tempo de maturação das lavouras, logística, assistência técnica e previsibilidade comercial.
Fonte: mercadodocacau com informações comprerural


