Por: Claudemir Zafalon
O mercado internacional do cacau voltou a registrar forte volatilidade nesta quinta-feira, pressionado por um ambiente macroeconômico mais adverso e por movimentos técnicos que aceleraram as vendas na bolsa de Nova York. O contrato julho encerrou o pregão com queda expressiva de US$ 204, fechando a US$ 4.189 por tonelada, após oscilar entre a máxima de US$ 4.491 e a mínima de US$ 4.094.
O movimento de baixa ocorreu em meio a uma liquidação generalizada das commodities agrícolas, em um cenário onde o foco global segue dividido entre tensões geopolíticas e incertezas econômicas.
A aguardada reunião entre o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o presidente chinês, Xi Jinping, monopolizou as atenções dos mercados nesta semana, mas terminou sem os anúncios robustos que investidores esperavam. Apesar do tom diplomático e das sinalizações sobre possíveis compras chinesas de produtos agrícolas norte-americanos, o encontro trouxe poucos elementos concretos capazes de alterar significativamente a dinâmica dos mercados globais.
Com isso, a atenção dos investidores permanece concentrada no Oriente Médio, onde a persistência das tensões continua elevando preocupações inflacionárias globais, pressionando os rendimentos dos títulos públicos e reduzindo o apetite por ativos mais voláteis, como commodities.
No caso específico do cacau, a deterioração técnica agravou o movimento vendedor. A quebra de importantes níveis de suporte desencadeou ordens automáticas de venda e ampliou a pressão baixista. O volume negociado foi robusto, com 42.437 contratos movimentados em 17.867 negócios, enquanto o interesse em aberto permaneceu praticamente estável em 194.065 contratos — sinalizando que o mercado segue altamente ativo, mas ainda sem definição clara de direção estrutural.
Apesar da pressão negativa nos preços, um fator climático continua limitando quedas mais profundas: o risco crescente de formação do El Niño.
O US Climate Prediction Center elevou para 82% a probabilidade de desenvolvimento do fenômeno até julho, um dado que volta a acender o alerta entre operadores. Historicamente, episódios de El Niño costumam provocar irregularidade climática em importantes regiões produtoras da África Ocidental, especialmente Costa do Marfim e Gana, podendo comprometer chuvas, desenvolvimento das lavouras e produtividade futura.
Esse componente climático ajuda a explicar por que, mesmo com a realização de lucros e pressão macroeconômica, o mercado continua sensível a qualquer sinal de risco na oferta global.
Outro ponto de suporte estrutural segue vindo da oferta física. Os estoques certificados monitorados pela ICE nos portos dos Estados Unidos recuaram 19.993 sacas, totalizando 2.639.531 sacas. Embora os volumes ainda permaneçam relativamente confortáveis frente ao quadro crítico vivido no auge da crise de oferta, a redução indica consumo contínuo da disponibilidade certificada.
Do lado técnico, o RSI (Índice de Força Relativa) do contrato julho opera em 56%, mostrando que, apesar da forte correção recente, o mercado ainda não entrou em território considerado de sobrevenda extrema.
No câmbio, o contrato futuro do real com vencimento em junho opera praticamente estável nesta manhã, ao redor de R$ 5,02 por dólar. Para o mercado brasileiro, a estabilidade cambial reduz parcialmente movimentos bruscos de repasse nos preços domésticos, embora a direção do mercado internacional continue sendo o principal vetor no curto prazo.
Fonte: mercadodocacau


