Há alguns anos, o CocoaAction, iniciativa brasileira da Fundação Mundial do Cacau (World Cocoa Foundation – WCF), vem trabalhando para fortalecer a cadeia produtiva do cacau no país, com uma gama ampla de ações, mas com foco na promoção de assistência técnica, fortalecimento do cooperativismo e acesso a crédito. A iniciativa é responsável pela coordenação do Grupo de Trabalho de Crédito, da Câmara Setorial do Cacau e Sistemas Agroflorestais (do MAPA), que acompanha os avanços do tema e discute soluções para os entraves existentes.
Desde 2018, início do CocoaAction, o valor do crédito rural público para cacau no Brasil praticamente triplicou: passou de R$ 143 milhões, em 2018, para quase R$ 445 milhões, em 2025. Os dados de Pronaf são ainda mais expressivos: de R$ 20 milhões em 2018 para R$ 206 milhões em 2025, crescimento de 930% em 7 anos, avanço relevante tendo em vista que a maioria dos produtores de cacau são da agricultura familiar. Consideram-se estes montantes nos empréstimos para investimentos em produção, custeio, industrialização e comercialização. A expansão de crédito no cacau é parte de um esforço coletivo, que envolve diversos atores da cadeia, como governos dos principais estados produtores, bancos, cooperativas, empresas e organizações do terceiro setor, para ampliar a capacidade de investimento dos produtores e retomar a produtividade.
Apesar do crescimento considerável, os dados ainda são tímidos quando comparados ao montante total destinado a outros cultivos brasileiros. Mesmo com todo o crescimento demonstrado nos últimos anos, o cacau recebeu somente R$ 445 milhões em crédito. Isso equivale a apenas 0,12% dos R$ 357 bilhões destinados ao crédito agrícola e pecuário no Brasil. Quando se consideram apenas os cultivos agrícolas, a situação é semelhante, já que o valor corresponde a cerca de 0,2% do montante destinado a todos os cultivos do país. De 2018 a 2025, o crédito total de origem pública para o setor agrícola e pecuário se manteve praticamente estável, com a pecuária aumentando seu protagonismo em relação aos cultivos agrícolas, o que reforça ainda mais o feito da cadeia cacaueira, levando-se em conta que os cultivos agrícolas, em geral, perderam uma fatia do bolo para a pecuária.
Ao analisarmos a aplicação nacional dos investimentos, a leitura é similar: crescimento considerável e oportunidades concretas de evolução. Até 2021, praticamente três estados — Bahia, Pará e Espírito Santo — concentravam mais de 99% do crédito destinado à cacauicultura. No entanto, nos últimos 4 anos, estados de todas as regiões do país tomaram empréstimos visando ao investimento em algum segmento da cadeia cacaueira. Apesar do protagonismo incontestável de alguns estados, parece haver um certo otimismo quanto à identificação de oportunidades para o cultivo de cacau, de Roraima ao Rio Grande do Sul, passando por iniciativas inovadoras em São Paulo, Minas Gerais e Tocantins.
Considerando as várias possibilidades de crédito ao produtor, quatro delas respondem por mais de 95% do crédito tomado na cadeia. O Microcrédito Produtivo Rural, responde a mais de um terço do valor financiado, o Pronaf Floresta responde a pouco menos de um terço, enquanto as modalidades Mais Alimentos e a de Custeios, quando somadas, respondem ao outro terço dos financiamentos. Pode-se supor, portanto, que as demais modalidades de crédito ainda não chegam ao produtor ou que a comunicação sobre tais modalidades pode ser aprimorada. Apesar dos sobressaltos do mercado, a tomada de crédito aumentou em 2025 em relação aos anos anteriores.
Cabe destacar aqui os números do CIAPRA – Consórcio Intermunicipal de Municípios do Baixo Sul da Bahia – que possui um programa de assistência técnica continuada para produtores de cacau, chamado Cacau+, que foca no aumento de produtividade e renda dos agricultores, com apoio principal do Governo da Bahia. Na primeira fase do programa foram atendidos 2.400 produtores da agricultura familiar, com resultados expressivos de aumento de produtividade no cacau, em diferentes modelos produtivos (cabruca, SAF e pleno sol). A segunda fase do programa, com lançamento previsto para os próximos meses, atenderá mais 2.600 famílias. O CocoaAction além de apoiar o Programa Cacau+, também apoiou um trabalho de facilitação do acesso a crédito pelo Instituto Conexsus, na Bahia e no Pará, com agentes de crédito auxiliando diretamente o produtor na conexão e suporte para tomada de crédito junto aos bancos.
É importante observar que o produtor de cacau que financia sua produção é pequeno, com média de 2 hectares de área cultivada, e toma um empréstimo de aproximadamente R$ 25 mil por hectare. Quando se considera apenas a modalidade Pronaf, a área média cai para 1,5 hectare e o valor para R$ 15 mil/hectare.
Durante a ExpoCacau 2025, um dos eventos organizados pelo CocoaAction, o Banco do Brasil anunciou a criação de um hub de bioeconomia em Ilhéus, sede do evento. Tal estratégia foi defendida a fim de ampliar a atuação do banco em cadeias produtivas que até então recebiam menos atenção. Além disso, durante o evento, o Banco do Brasil oficializou a assinatura de contratos de concessão de crédito com valor de mais de R$ 1 milhão para 25 agricultores familiares. Este foi um dos grandes resultados da ExpoCacau, que nasceu com o objetivo de facilitar o acesso dos produtores a tecnologias, produtos e soluções para a cacaicultura, de fomentar negócios e conexões na cadeia que melhorem a eficiência produtiva e rentabilidade do produtor (Nota: a ExpoCacau 2026 já está confirmada e acontecerá de 25 a 27/8, em Ilhéus, BA).
Além da expansão do crédito público (Plano Safra) no cacau, há também esforços para ampliar outras formas de crédito, como o fundo Kawá, idealizado pelo Instituto Arapyaú, Violet e Tabôa, com apoio do CocoaAction. Esse fundo que já está operando com R$ 30 milhões disponíveis aos produtores com menos entraves burocráticos, tem meta de atingir R$ 1 bilhão até 2030, com foco na agricultura familiar e cultivo agroflorestal de cacau.
O cenário da cacauicultura apresenta desafios, mas é promissor, pois demonstra evolução e grandes possibilidades de avanço para diversos atores da cadeia produtiva. Vários gargalos e ineficiências do mercado podem ser superados com a contínua cooperação entre os atores envolvidos, com assistência técnica e fortalecimento de entidades associativas da cacauicultura, como as cooperativas agrícolas.
Tendo em vista a grande instabilidade no mercado internacional de cacau e as incertezas dos últimos anos, o cacau brasileiro tem potencial para ampliar o crédito como forma de resgatar a capacidade de investimento do produtor, e melhorar sua produtividade e rentabilidade. O Brasil talvez seja a única origem de cacau capaz de aliar eficiência, sustentabilidade ambiental e progresso social ao disponibilizar ferramentas que possibilitam melhorar a renda do produtor de forma estruturante e com visão de longo prazo.
Por Gustavo Paiva, da Equipe do CocoaAction Brasil.


