El Niño volta ao radar e pode reacender preocupações com a produção global de cacau

A possibilidade de retorno do fenômeno climático El Niño voltou a chamar a atenção dos mercados agrícolas internacionais. A Organização Meteorológica Mundial (OMM), agência meteorológica das Nações Unidas, informou nesta terça-feira que as condições atuais dos oceanos apontam para o desenvolvimento de um El Niño moderado, com potencial para se tornar forte nos próximos meses.

Segundo a entidade, o aquecimento das águas do Oceano Pacífico já está influenciando os padrões climáticos globais e deve provocar temperaturas acima da média em grande parte do planeta entre junho e agosto. A previsão é de que o fenômeno permaneça ativo pelo menos até novembro.

Embora ainda exista divergência entre os modelos meteorológicos sobre a intensidade do evento, especialistas alertam que governos, produtores e empresas devem se preparar para possíveis impactos significativos, incluindo secas severas, chuvas excessivas, ondas de calor e aumento da frequência de eventos climáticos extremos.

A notícia ganha relevância especial para o setor cacaueiro mundial. O último episódio forte de El Niño, entre 2023 e 2024, foi apontado como um dos fatores que contribuíram para os problemas produtivos observados na África Ocidental, região responsável por mais de 60% da produção global de cacau. As condições climáticas adversas registradas nos últimos anos reduziram a produtividade em importantes origens, contribuindo para a disparada histórica dos preços do cacau nas bolsas internacionais.

Agora, com o mercado ainda tentando encontrar equilíbrio entre recuperação da oferta e demanda enfraquecida, o retorno do fenômeno climático pode representar um novo fator de volatilidade. O CEO da Barry Callebaut, uma das maiores processadoras de cacau do mundo, Hein Schumacher, já alertou que regiões estratégicas para a produção mundial, como a África Ocidental e o Equador, podem sofrer impactos caso o fenômeno se intensifique. Juntas, essas áreas respondem por uma parcela significativa do abastecimento global da matéria-prima.

Historicamente, o El Niño provoca alterações climáticas distintas em diferentes partes do mundo. Enquanto algumas regiões recebem chuvas acima da média, outras enfrentam períodos prolongados de seca e temperaturas elevadas. Para a cacauicultura, isso pode significar redução da umidade do solo, estresse hídrico das plantas, menor formação de frutos e alterações nos ciclos produtivos. Dependendo da intensidade do fenômeno, também podem surgir condições favoráveis para o aumento da incidência de determinadas pragas e doenças, especialmente em áreas onde os padrões climáticos sofrem mudanças bruscas.

Além do cacau, diversas commodities agrícolas podem ser afetadas, elevando a preocupação com a oferta global de alimentos e contribuindo para novas pressões inflacionárias. O próprio setor de alimentos já acompanha o tema com atenção, uma vez que oscilações climáticas severas costumam impactar diretamente os custos de produção e a disponibilidade de matérias-primas.

Nos últimos meses, os contratos futuros de cacau passaram a refletir expectativas de recuperação da produção em países como Costa do Marfim, Gana, Equador e Brasil. Esse cenário ajudou a pressionar as cotações para baixo após os recordes históricos registrados em 2024. No entanto, caso as previsões de um El Niño mais intenso ganhem força ao longo do segundo semestre, o mercado poderá voltar a incorporar um prêmio de risco climático nas bolsas, aumentando novamente a volatilidade dos preços.

Embora ainda seja cedo para medir os efeitos concretos sobre a safra 2026/27, os próximos meses serão decisivos para acompanhar a evolução do fenômeno e seus possíveis reflexos sobre a oferta mundial de cacau.

Fonte: mercadodocacau com informações reuters

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