África amplia cooperação e busca assumir maior protagonismo na cadeia global do cacau

Os quatro maiores produtores de cacau da África (Costa do Marfim, Gana, Nigéria e Camarões) deram um novo passo na estratégia de fortalecimento da indústria regional ao firmarem a Declaração de Abuja, documento que estabelece uma aliança para coordenar políticas voltadas à agregação de valor, industrialização e maior poder de negociação no mercado internacional.

Juntos, os quatro países são responsáveis por cerca de dois terços da produção mundial de cacau. Apesar dessa liderança na oferta, a maior parte da riqueza gerada pela cadeia permanece concentrada em países que importam as amêndoas e realizam o processamento industrial, produzindo manteiga, massa, pó de cacau e chocolate.

A proposta da nova aliança é justamente alterar essa lógica. Em vez de permanecerem como grandes exportadores de matéria-prima, os governos pretendem incentivar investimentos em processamento local, harmonizar padrões de qualidade, coordenar negociações internacionais e criar condições para que uma parcela maior do valor agregado permaneça nos países produtores.

A iniciativa representa uma evolução da cooperação iniciada por Costa do Marfim e Gana em 2018, quando os dois países passaram a atuar conjuntamente em temas relacionados à comercialização do cacau, culminando na criação do Living Income Differential (LID), mecanismo desenvolvido para elevar a remuneração dos produtores. Agora, com a entrada da Nigéria e dos Camarões, o bloco amplia sua representatividade e passa a reunir quatro dos cinco maiores produtores mundiais da commodity.

Entre as prioridades anunciadas estão a expansão da capacidade industrial instalada na África, a criação de padrões comuns de qualidade, o fortalecimento das cadeias de rastreabilidade e sustentabilidade e a coordenação de posições frente às novas exigências regulatórias dos mercados consumidores, como a legislação europeia de combate ao desmatamento (EUDR).

Embora algumas interpretações apontem para a criação de uma espécie de “OPEP do cacau”, especialistas avaliam que essa comparação ainda é prematura. Diferentemente do mercado de petróleo, não foram anunciados mecanismos de controle de produção, cotas de exportação ou coordenação de oferta capazes de influenciar diretamente os preços internacionais. Neste primeiro momento, o foco da Declaração de Abuja está voltado ao desenvolvimento industrial e ao aumento da participação africana nas etapas de maior valor agregado da cadeia.

Ainda assim, o movimento possui importância estratégica. Caso os investimentos em processamento avancem ao longo dos próximos anos, parte do fluxo internacional de amêndoas poderá ser substituída por exportações de produtos semielaborados, alterando gradualmente a dinâmica do comércio mundial de cacau e derivados.

Para o mercado internacional, a iniciativa reforça uma tendência observada nos últimos anos: os países produtores deixam de discutir apenas preços e passam a buscar maior protagonismo econômico dentro da indústria global do chocolate. O desafio, agora, será transformar o compromisso político firmado em Abuja em investimentos, infraestrutura e políticas públicas capazes de consolidar essa nova etapa da cacauicultura africana.

Fonte: mercadodocacau

Curtiu esse post? Compartilhe com os amigos!

Facebook
Twitter
LinkedIn
WhatsApp
Telegram

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *