‘A política tem que estabilizar a angústia’, diz CEO da Nestlé

O CEO mundial da Nestlé, Paul Bulcke, fez ontem uma visita relâmpago ao Brasil para participar de algo cada vez mais raro neste momento de forte retração econômica e crise aguda da indústria. Ele inaugurou em Minas Gerais uma fábrica de cápsulas de café, achocolatados e chás da linha Nescafé Dolce Gusto. Em meio a uma tempestade política que põe negócios em suspense, Bulcke disse ao Jornal que as oscilações são normais em muitos países onde a Nestlé atua. Mas deu seu recado: qualquer empresa precisa de um “enquadramento estável” para avançar.

Bulcke não quis se estender ao ser perguntado sobre como a discussão em torno de um impeachment da presidente Dilma Rousseff estaria afetando as expectativas da companhia no país. Mas observou que o “enquadramento estável” é tarefa para os políticos. “Esse é o trabalho da política e acho que aí a política tem que fazer sua parte para estabilizar essa angústia e projetar o país de modo estável e em uma boa direção”, disse. “Sou otimista, espero que cheguemos a isso.”

Bulcke procurou mostrar que encara como passageiro o mau momento da economia brasileira e que a Nestlé não se deixa levar pela paralisia em Brasília em função do debate sobre o impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT).

“Inaugurar uma fábrica é a melhor prova de confiança no país”, disse ele ontem, em Montes Claros, no norte de Minas Gerais. A fábrica é primeira da Dolce Gusto localizada fora da Europa. É um investimento de R$ 220 milhões. Com o câmbio valorizado, a companhia vai exportar cerca da metade das cápsulas.

“Estamos há mais de 90 anos no país. Em muitos países estamos há mais de 100 anos. Estamos nos bons tempos e nos tempos não tão bons. Agora, o Brasil passa por essa situação inflação e coisas assim, mas nosso investimento não está ligado a apenas aos bons momentos. É para o longo prazo”, disse ele. “Espero que o Brasil saia disso rapidamente.”

A Nestlé, que agora tem 30 fábricas no Brasil, lançou recentemente a pedra fundamental da que virá a ser sua 31ª. Será uma unidade de produtos de cuidados com a pele orçada em R$ 200 milhões em Hortolândia (SP).

O Brasil é quarto maior mercado mundial da Nestlé. Os três primeiros são EUA, China e França. E o negócio de cápsulas de café são um negócio em franco crescimento, mesmo no Brasil da crise. No ano passado, teve aumento de 47% no país e a Nestlé diz que experimentou um avanço da mesma ordem.

Até então, todas as cápsulas da Dolce Gusto vendidas no Brasil eram importadas. A fábrica de Montes Claros (com 100 empregos diretos 1.000 indiretos) começou a rodar há dois meses produzindo quatro sabores. O café usado aqui é 100% brasileiro; nas três fábricas europeias, 65%. O Brasil é o maior produtor de café do mundo.

Matéria-prima nacional não significará, no entanto, queda notável nos preços do Dolce Gusto, disse em entrevista coletiva Juan Carlos Marroquín, presidente da Nestlé no Brasil. Ele disse que a empresa precisa cobrir seus custos da obra da fábrica e que as três fábricas europeias da Dolce Gusto são muito competitivas em termos de preço.

A Nestlé já teria atraído ao menos um grande fornecedor para Montes Claros: a alemã RPC, para fazer os copinhos plásticos das cápsulas de Dolce Gusto. O prefeito, Ruy Muniz, anunciou ontem, ao lado de Bulcke, que os alemães bateram o martelo e prevê em inaugurar a fábrica no fim de 2016.

Em Montes Claros, onde já fabrica um de seus produtos mais conhecidos no país, o Leite Moça, a Nestlé quer usar cerca de metade da produção de Dolce Gusto (a capacidade anual é de 360 milhões de cápsulas) para abastecer o mercado brasileiro e metade para exportar, principalmente para os países do Mercosul. Ontem à noite, ele tinha viagem programada a Buenos Aires. Bulcke trabalha na sede na Nestlé, em Vevey, na Suíça. Chegou ontem pela manhã em São Paulo, voou para Minas, e voltou para São Paulo, de onde seguiria para a Argentina.

Com vendas que somaram 91,6 bilhões de francos suíços no ano passado (ante 92,1 bilhões em 2013), a Nestlé trabalha com uma perspectiva de crescer 4,5% neste ano. Suas operações estão em 197 países e emprega quase 339 mil pessoas. A empresa completa 150 anos em 2016.

Os países emergentes merecem atenção especial de Bulcke. Em particular, China, Índia os latino-americanos. A Nestlé cresceu nos países em desenvolvimento, entre janeiro e setembro deste ano, 6,6%. Nos países ricos, o crescimento foi de 2,2%.

Ele cita algumas que mais crescem: produtos de nutrição infantil, leite em pó, cafés, as cápsulas da Dolce Gusto e do Nespresso e os chocolates Kit Kat.

O executivo diz que não muda seus planos em relação aos emergentes em função do que pode ser um golpe para algumas dessas economias em 2016: a decisão do banco central dos EUA de aumentar os juros. Juros mais altos têm potencial de arrastar recursos hoje alocados em vários emergentes, entre os quais o Brasil. “Não é um fator que faça a gente pensar ‘agora, temos que mudar os planos’. Nós tomamos nossas iniciativas. Temos tantas condicionantes e essas são só uma parte dessas condicionantes.”

Antes de seguir para Argentina (e depois para um breve descanso no Chile, onde tem família), Paul Bulcke falou rapidamente – em português bastante fluente – de outro sucesso mundial da Nestlé na área de café: as cápsulas de Nespresso. Perguntado se a vinda da Dolce Gusto para o Brasil poderia ser um prenúncio para uma fábrica da bebida, que tem Geooge Clooney como garoto-propaganda, no país, Bulcke sugeriu que não.

O Nespresso, lembrou ele, é feito com cafés vindos de diversos países. E as restrições brasileiras para importação de café seriam um limitador para uma fábrica desse tipo, disse Bulcke. A Nestlé espera autorização para importar café verde da Etiópia que seria usado, numa parcela reduzida, na fábrica de Montes Claros. Mas esbarra, por ora, nos temores de que o café africano possa trazer pragas novas para o Brasil. Fonte: Valor 

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