As chuvas que caíram sobre a região sul da Bahia nos últimos dias trouxeram algum alívio, mas ainda estão longe de restabelecer os níveis normais de umidade do solo. Além do volume insuficiente, elas ocorreram de maneira desuniforme, o que tem deixado os produtores de cacau preocupados. “Está chovendo bastante em algumas regiões próximas ao litoral, mas no interior a gente não está tendo um volume bom de chuvas. Camacan e Itajuípe, por exemplo, estão sentindo bastante os efeitos da seca e isso vai, por certo, afetar nossa produção esse ano”, afirmou Águido Muniz, presidente do Instituto Pensar Cacau.
Ainda segundo ele, a safra principal, que vai de outubro a abril, foi prejudicada em torno de 30%. Essa mesma informação foi passada pelo presidente do Sindicato Rural de Ilhéus, Milton Andrade, em entrevista. “As chuvas que caíram até agora estão longe do estado de normalidade de nossa região. Sem dúvida alguma, a safra principal foi prejudicada em, aproximadamente, 30%. E a safra temporã 2016/2017 já está comprometida em cerca de 40%”, completou.
A estiagem que durou mais de quatro meses e foi considerada a mais grave dos últimos tempos também vai provocar atraso na colheita. “O cacau que nós começamos a colher normalmente no final de abril e início de maio, este ano, provavelmente, vamos começar a colher no final de junho e início de julho, caso as chuvas persistam e seja normalizado o regime pluviométrico aqui na região”, revelou Águido Muniz.
Para Thomas Hartmann, que é analista de mercado e especialista na commodity cacau, apesar da redução da safra principal, ainda se espera alcançar um milhão de sacas. O prejuízo mesmo será na “temporã”, que começa em maio e vai até o mês de setembro. “A safra temporã da Bahia será fortemente afetada pela estiagem. O resultado deverá ser substancialmente menor que do temporão passado, que foi de 1,58 milhão de sacos”, comparou.
Exportação
Em outubro do ano passado, a Cargill embarcou seis mil toneladas de cacau para Amsterdã, na Holanda. A reabertura das exportações pelo Porto de Ilhéus, após duas décadas, trouxe otimismo para os cacauicultores da região, que ficaram animados com a possibilidade da retomada do crescimento deste segmento no país.
Para Hartmann, no entanto, “a exportação de seis mil toneladas foi um ato isolado, de conveniência empresarial momentânea, e não significa uma retomada das exportações em maior escala. Estas, por enquanto, ficarão limitadas a pequenas quantidades ocasionais”, ressalvou.
A exportação em 2015 foi motivada pela boa safra brasileira, que alcançou números capazes de atender à demanda interna e, ainda, disponibilizar um excedente capaz de ser exportado. O status de mercado superabastecido, no entanto, contradiz as previsões de safra para este ano. Ainda assim, os produtores esperam que o problema seja, pelo menos, amenizado.
“Para os próximos seis meses, as entradas de cacau serão bem menores. Porém, se as condições daqui pra frente forem favoráveis, com menor incidência de vassoura-de-bruxa, poderemos reverter a situação, pois existe um ditado antigo que diz: com uma boa lua, se tem uma boa safra”, apostou Milton Andrade.
Preços
De acordo com Águido Muniz, embora as cotações internacionais estivessem bastante elevadas, acima de US$ 3 mil/tonelada, e a alta do dólar estivesse favorecendo os preços no mercado interno, durante o ano de 2015 as indústrias aplicaram um deságio na ordem de US$ 900 por tonelada. Isso representou uma perda de 1 bilhão de reais na economia regional no ano passado.
A mesma ideia é compartilhada pelo presidente do Sindicato Rural de Ilhéus. “Continuamos sendo massacrados pelas indústrias moageiras, praticando a incidência de um deságio sem fundamento, prejudicando a parte frágil da cadeia produtiva”.
Já no entender de Thomas Hartmann, com a queda das cotações externas dos últimos dias, os preços do produtor também sofreram baixas significativas, mas, pelo menos por enquanto, tais valores ainda são satisfatórios. “O problema este ano será a falta de produção”, finalizou. Fonte: Diário Bahia


