Turismo de experiência estimula visitas às fazendas produtivas para conhecer as etapas do beneficiamento do cacau, da colheita do fruto à fabricação da guloseima
Terceiro maior destino turístico da Bahia, Ilhéus é conhecida por suas praias e, principalmente, pelo cacau. A história do ciclo do fruto, que começou no início do Século 18, se confunde com a da cidade, conhecida mundialmente através dos romances de Jorge Amado. As obras do escritor, que retratam o apogeu das plantações e de seus coronéis, no fim do Século 19, revelam cenários deslumbrantes, com fazendas debruçadas para a Mata Atlântica. O visual único quase se perdeu no fim da década de 90 com a praga da vassoura-de-bruxa.
Quase 30 anos depois, esses cenários voltam a ganhar destaque através do turismo de experiência, que permite não só pernoitar em uma fazenda de 190 anos – a Provisão, decorada com móveis de época –, como conhecer as etapas do beneficiamento de cacau, da colheita à secagem nas barcaças.
O passado se encontra com o presente em alguns desses endereços, como a fazenda Riachuelo, que data de 1855 e abriga a moderna fábrica dos chocolates Mendoá, localizada no que em breve será a Estrada do Chocolate, roteiro turístico que vai de Ilhéus a Uruçuca, idealizado pelo empresário Marco Lessa. “O trecho tem cerca de 40 quilômetros e reúne um conjunto de atrativos relacionados ao cacau e ao chocolate. São mais de 20 fazendas, muitas preparadas para visitação, como Almada, Provisão, Riachuelo, Leão de Ouro, uma fábrica de chocolate nos moldes da Suíça e o Instituto Biofábrica de Cacau”, diz Lessa.
De acordo com ele, a Estrada do Chocolate deve começar a funcionar no Verão. “O governo do estado investirá nos portais que ficarão na saída de Ilhéus e na BR-101, trecho no qual vamos oferecer suporte com segurança e sinalização. O Sebrae cuidará da capacitação das pessoas”, revela o empresário, que já pensa em expandir a ideia. “A gente quer replicar isso para outros trechos da região que também são bonitos e têm história para contar”. A expectativa é receber tanto os turistas em férias quanto grupos segmentados, que procuram Ilhéus para conhecer mais sobre sua nova vedete: o chocolate gourmet.
De origem – Ilhéus produz mais de 150 mil toneladas por ano, de acordo com a Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (Ceplac). Além de ser responsável por 60% do cacau produzido no Brasil (ao lado do Pará, Rondônia e Espírito Santo), a cidade reúne 20 marcas de chocolate de origem.
Esse segmento, no qual as características sensoriais das amêndoas do cacau são valorizadas, a exemplo do que ocorre com o café gourmet, tem crescido no Brasil e em países da União Europeia e América do Norte e no Japão. “Enquanto a França possui apenas seis marcas que produzem chocolate a partir da amêndoa, já somos mais de vinte. Esse crescimento se deu exatamente após o Festival Internacional do Chocolate e Cacau (FICC)”, informa Lessa, idealizador e organizador do evento e criador de uma das marcas premium, a Chor.
Esse movimento ganhou força em 2009, depois da primeira edição do FICC. Lessa foi convidado pelo presidente da Associação de Produtores de Cacau do Sul da Bahia, Henrique Almeida, para montar o estande do Brasil no Salon du Chocolat, em Paris. “A gente inaugurou a inserção de um país produtor de cacau no evento. Começamos com um estande com 40 metros quadrados e hoje temos o maior de todos, com 105 m²”.
Uma coisa que chamou a atenção de Lessa no evento foi a ausência do Brasil no mapa do cacau fino no mundo. “Percebi que existia uma verdade internalizada de que a gente não conseguiria produzir chocolate de qualidade. Isso nos incomodava, então, no segundo ano, a gente começou a inscrever as amêndoas e várias foram premiadas”, conta.
As conquistas foram tantas que, em 2013, os produtores levaram não só amêndoas como também os chocolates de origem para o Salon. “No segundo dia já tínhamos vendido tudo, mesmo com um produto caro. Na próxima edição, em outubro, vamos vender apenas chocolate. Todos vão receber o selo Cacau do Brasil”, conclui.
Uma das marcas será a Sagarana, de Almeida. Produzida há quatro anos, tem duas linhas – de 67% e de 42,5% ao leite. O empresário encontrou uma fórmula para ajustar o gosto do brasileiro, que prefere o chocolate mais doce, ao sabor marcante das versões com massa de cacau concetrada. “Meu foco são os chefs, porque eles vão falar bem do produto”, explica.
O resultado desse trabalho é o convite feito à Sagarana para ser o chocolate utilizado nas receitas da edição brasileira do Gastronômade, evento classe A com etapas em Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Goiás, Distrito Federal, São Paulo e Bahia. Por aqui, vai acontecer em 26 de setembro, no Tivoli Ecoresort Praia do Forte, e terá Fabrício Lemos, do Amado, como chef.
Turismo de experiência
Quem visita a região de Ilhéus e quer viver um pouco da realidade de quem lida com cacau tem que fazer um passeio pelas fazendas produtoras do fruto. Muitas propriedades permitem que o turista acompanhe todo o processo de coleta e preparo da semente, incluindo, é claro, um momento de degustação da guloseima.
Entre as várias fazendas que oferecem passeios agendados, as mais procuradas são a Primavera, Yrerê e Provisão. A primeira é conhecida por ser uma das locações da novela Renascer, da TV Globo. Lá, é possível visitar um pequeno museu que reúne objetos utilizados pelos artistas da trama global e relíquias centenárias. A fazenda, que fica no Km 20 da rodovia Jorge Amado, que liga Itabuna a Ilhéus, funciona em sistema day-use, possui restaurante e é palco de shows regionais. O visitante pode aproveitar para fazer caminhadas ecológicas, passear de charrete.
A fazenda Yrerê tem como atrativos a fabricação artesanal de móveis rústicos e artesanato. A visita dura duas horas e pode ser feita em qualquer dia da semana. Está localizada às margens do Rio Cachoeira, à sombra da Mata Atlântica, no Km 11 da rodovia Jorge Amado.
Estrada do Chocolate – A Provisão é outra fazenda da região que investe no turismo de experiência. A vivência começa logo na entrada da casa principal, morada há 190 anos da família que teve como patriarca Domingos Adami de Sá, primeiro prefeito de Ilhéus. Um retrato do coronel, citado no livro Terras do Sem Fim, de Jorge Amado, divide espaço com outros objetos e móveis antigos, que decoram tanto a sala quanto os sete quartos que o lugar oferece como hospedagem. A diária, com pensão completa, custa R$ 140 (crianças a partir de 7 anos pagam a metade).
A recepção fica a cargo da cadelinha Mel, fiel escudeira do proprietário, Roberto Novaes, da sexta geração da família. À frente do negócio há 12 anos, o empresário também cultiva cacau em 175 dos 400 hectares da fazenda. “Temos pés com mais de 80 anos”, conta. Além de conhecer a cultura do fruto, quem for à Provisão pode fazer trilhas na Mata Atlântica à margem do rio Almada. A visita guiada de um dia, com direito a almoço, sai por R$ 50. Basta ligar antes e combinar.
Como o menu fica por conta do cliente, a dica é pedir a moqueca de jaca, especialidade de Novaes, praticamente um chef. De sobremesa, pode ser doce de carambola, cajá, cocada de cacau ou chocolate 100%, tudo produzido por lá e à venda na lojinha. A fazenda fica no Km 27 da rodovia que liga Ilhéus a Uruçuca.
Em breve, outra propriedade, a Mucambo, estará pronta para receber hóspedes. A casa, com 16 suítes, será transformada em um misto de hotel e spa, ampliando o número de leitos na Estrada do Chocolate.
Ciência – Outro tipo de visita, com foco na produção de chocolate de origem, também tem movimentado a região. Fazendas como a Riachuelo, onde está a fábrica dos chocolates Mendoá, e a Sagarana, recebem grupos pequenos e selecionados, interessados em cultivo e tecnologia. Diretor da Mendoá, Leandro Almeida recebe visitantes também no laboratório de pesquisa da marca de chocolates, construído antes da fábrica.
A força do cacau
*12 bilhões de reais é o valor movimentado pela cadeia produtiva no Brasil. O cacau é plantado na Bahia, Pará, Rondônia e Espírito Santo
* 3º lugar é a posição que o país ocupa no ranking de consumo de chocolate no mundo. O Brasil é o quinto maior produtor de cacau do planeta
* 60% do cacau produzido no Brasil vem da Bahia. São mais de 150 mil toneladas do fruto por ano
* 20 são as marcas de chocolate de origem na Bahia. Entre elas estão Amma, Sagarana, Amado Cacau, Chor, Mendoá e Costanegro
* 8 mil leitos, entre pousadas, hotéis e resorts, um aeroporto e um porto formam o trade turístico de Ilhéus, que recebe 200 mil visitantes no Verão
Fonte: Correio 24hs


