Para Antônio Pereira Sousa
“Nua dentro da luz. Os cabelos são mais negros, agora, descidos sobre os ombros. Empinam-se os seios que sombreiam o ventre. Lisas como o ventre, a mesma pele morena, as coxas unidas. A vontade é a de diminuir o peso das mãos para não machucá-la e conter o sangue que corre solto em seu próprio corpo. Os braços, porém, já se distenderam. E, nas mãos tomando os seios, aperta-os de leve enquanto os olhos são brasas e as pernas estremecem como se fossem andar. Debruça-se para beijar os ombros, correndo a boca até o pescoço, sentindo na outra carne a fome de sua carne. Deita-a, então, no chão de barro onde o fogo ainda devora a lenha. Desperta-o, todos os músculos relaxados, aquele fogo. Reencontra-se sobre a mulher, um pouco ofegante, imóvel e tranquilo. Firma as mão na terra para levantar-se mas ela o prende com os olhos úmidos que brilham na luz. Volta a deitar-se, seu peito esmagando os seios da mulher, o sangue se acalmando no corpo…”
Prezado(a) leitor(a), francamente, você seria capaz de prever que todo esse lirismo encantador, suave, sutil e poético está contido numa história que tem como cerne de seu enredo o ódio? Pois é, o que você acabou de ler, é um fragmento do extraordinário e universal “Corpo Vivo”, grande romance do não menos extraordinário e universal Adonias Filho (1915-1990). Este obra de arte formidável bem que já poderia ter tido uma versão cinematográfica tão espetacular quanto ela merece. Seria o caso, segue-se uma sugestão, que o romance chegasse às mãos do cineasta Quentin Tarantino (1963), por exemplo, porque certamente ele faria um filme tão arrebatador quanto o livro.
“Corpo Vivo” do romancista itajuipense Adonias Filho se passa aqui na nossa Região Cacaueira. Contudo, quem pensa que se trata de mais um romance “regionalista”, engana-se profundamente. Muito pelo contrário: Adonias consegue transpor para sua literatura um vigor universal, ao tratar de sentimentos também universais: amor, ódio, traição, ganância, ambição e esperança. Em “Corpo Vivo”, vemos Cajango, personagem central da trama, transformado em fera, para se vingar da chacina praticada contra sua família. Ele é treinado por seu tio, o índio Inuri, no Camacã (uma mata cerrada e tão densa que é inascível à maioria dos homens, mas, que para eles é apenas uma casa natural).
O ódio e a vingança alimentavam a alma de Cajango (se é que ele possuía uma). Todo treinamento de Inuri voltava-se para fortalecer a única coisa que restava viva em Cajango, seu corpo. E este corpo, bem treinado, seria capaz de sobreviver a todas as intempéries e de agir, tanto mais cruel quanto possível, para vingar aquela chacina. E assim, quando tudo parece conduzir a trama para uma óbvia vingança com graus exacerbados de crueldade e ódio, entra em cena a genialidade de Adonias Filho: eis que Cajango conhece Malva… Bem, aí, uma parte do que aconteceu depois daquele encontro, você leu no início desse arrazoado, mas, como essa tragédia ‘greco-grapiúna’ acabará, você vai ter quer ler neste fantástico livro-vivo!
Este ano, comemora-se o Centenário de Adonias Filho. E estão envolvidos para este Centenário os meios acadêmicos, intelectuais e estudiosos da obra adoniana: a Universidade Estadual de Santa Cruz que fará o Colóquio Internacional do Centenário, em novembro de 2015 e, as Academias de Letras de Salvador, Ilhéus e Itabuna. Em Itajuípe já está aberto para o público, desde de 2011, o Memorial Adonias Filho, que tem por objetivo preservar e difundir a história de vida e a obra material e imaterial desse nosso grande gênio – imortal da Academia Brasileira de Letras.
Leia Adonias, e você se sentirá mais vivo do que nunca!
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