Cacau amplia perdas, estoques sobem e mercado testa suportes técnicos em meio à crise de demanda

Por: Claudemir Zafalon

O mercado internacional de cacau mantém sua trajetória de queda e já opera nos níveis mais baixos desde 2023, refletindo um ambiente marcado por demanda global enfraquecida, substituição parcial da matéria-prima por outros ingredientes e recomposição de estoques nos principais países produtores. O movimento evidencia uma mudança importante na dinâmica do setor, que há poucos meses convivia com déficits severos de oferta e preços historicamente elevados.

Em Gana e na Costa do Marfim, armazéns continuam acumulando grãos não vendidos, mesmo após o governo ganês ter promovido ajustes nos pagamentos aos agricultores na tentativa de estimular a fluidez da comercialização. O volume retido sinaliza dificuldade de escoamento em um momento em que a indústria global opera de forma mais cautelosa, priorizando o uso de estoques previamente adquiridos e ajustando formulações para preservar margens.

Nos Estados Unidos, os estoques certificados monitorados pela Intercontinental Exchange (ICE) avançaram 28.655 sacas, totalizando 2.065.040 sacas, o maior nível em cerca de 4,25 meses. O aumento reforça a percepção de que há mais cacau disponível para entrega imediata do que efetivamente sendo absorvido pelo mercado, ampliando o risco de pressão adicional sobre as cotações internacionais.

O cenário fundamental também é influenciado por condições climáticas favoráveis na África Ocidental, que fortalecem as perspectivas de produção para os próximos meses. Paralelamente, a América do Sul contribui com expectativa de aumento de oferta, ampliando a sensação de abundância em um contexto de consumo retraído.

Diante desse ambiente desafiador, a Costa do Marfim avalia reduzir o preço pago aos produtores, buscando alinhamento com os valores praticados em Gana como estratégia para conter o contrabando entre fronteiras. A medida, se confirmada, poderá gerar novos desdobramentos sociais e econômicos na principal origem mundial da matéria-prima do chocolate.

No campo técnico, o contrato maio encerrou o último pregão a US$ 3.314, com queda de US$ 152, após oscilar entre a mínima de US$ 3.189 e a máxima de US$ 3.461. O volume foi expressivo, com 30.822 negócios e total de 68.631 contratos negociados. O interesse em aberto aumentou 5.369 posições, alcançando 160.011 contratos, indicando manutenção do fluxo vendedor no mercado.

O Índice de Força Relativa (RSI) recuou para a região de 20%, zona considerada tecnicamente sobrevendida, o que pode abrir espaço para correções pontuais no curto prazo. As resistências do contrato de maio estão na faixa entre US$ 3.500 e US$ 3.650, enquanto o suporte relevante encontra-se próximo de US$ 3.000 por tonelada.

Nesta sexta-feira ocorre o último dia para saída do contrato de março antes do período de liquidação física, fator que pode adicionar volatilidade adicional às negociações. No mercado cambial, o contrato futuro do dólar com vencimento em 27 de fevereiro de 2026 permanece estável na faixa de R$ 5,25, variável importante para a formação de preços no mercado interno brasileiro.

O conjunto de fundamentos, estoques crescentes, oferta favorecida pelo clima e demanda fragilizada, mantém o viés baixista predominante. Ainda que indicadores técnicos sinalizem possível respiro de curto prazo, o equilíbrio estrutural do mercado dependerá da retomada consistente do consumo global e da absorção gradual do excedente atualmente acumulado.

Fonte: mercadodocacau

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