Por: Claudemir Zafalon
Após quase dois meses consecutivos de forte desvalorização, o mercado internacional de cacau inicia o novo mês ensaiando um movimento técnico de recuperação. O ajuste ocorre depois de uma queda expressiva que levou os indicadores gráficos a níveis extremos de sobrevenda, abrindo espaço para um repique pontual nos preços.
O movimento observado neste início de período não caracteriza, ao menos por ora, uma reversão estrutural da tendência de baixa, mas sim um típico processo de cobertura de posições vendidas, o chamado short covering. Investidores que vinham apostando na continuidade da queda passaram a recomprar contratos para realizar lucros e reduzir exposição, gerando pressão compradora temporária e alívio nas cotações.
O contrato maio encerrou o pregão de sexta-feira cotado a US$ 2.888 por tonelada, com baixa diária de US$ 236, após oscilar entre a mínima de US$ 2.849 e a máxima de US$ 3.040. O volume foi expressivo, com 21.248 negócios e 47.749 contratos negociados. O interesse em aberto aumentou em 3.627 posições, atingindo 189.176 contratos, sinalizando que, apesar da volatilidade, há manutenção de participação ativa no mercado.
No campo das entregas físicas, foi registrado apenas um contrato entregue pela Marex, recebido pela Socgen, totalizando 724 contratos acumulados até o momento, número que ainda não indica pressão significativa via fluxo físico imediato.
Os estoques certificados nos portos dos Estados Unidos, monitorados pela ICE, voltaram a crescer. Houve incremento de 18.857 sacas, elevando o total para 2.174.770 sacas. O aumento dos estoques segue sendo um fator estrutural de pressão, reforçando a percepção de oferta mais confortável no curto prazo.
Do ponto de vista técnico, o RSI (Índice de Força Relativa) encontra-se na região de 23,5%, nível classicamente associado à condição de sobrevenda. Esse indicador ajuda a explicar o movimento de ajuste observado, já que patamares abaixo de 30% costumam sinalizar exaustão vendedora no curto prazo.
Os dados mais recentes do CFTC mostram que, no período de 17 a 24 de fevereiro de 2026, os fundos reduziram parte de suas posições vendidas em 3.830 contratos, permanecendo ainda com posição líquida vendida de 9.991 contratos. Já os pequenos especuladores ampliaram levemente suas apostas na baixa, vendendo 66 contratos adicionais e ficando com posição líquida vendida de 2.151 contratos. O quadro geral ainda revela viés predominantemente baixista entre os participantes especulativos.
Tecnicamente, o contrato maio encontra resistência relevante na faixa de US$ 3.150 a US$ 3.450. Apenas o rompimento consistente dessa zona poderia sinalizar uma mudança mais estrutural no comportamento dos preços. Por outro lado, os suportes permanecem posicionados na região de US$ 2.750 e, mais abaixo, em US$ 2.500, patamares que se testados novamente, poderão intensificar a volatilidade.
No campo fundamental, o mercado seguirá atento aos desdobramentos da oferta global, ao comportamento da demanda por derivados e às condições climáticas nas principais regiões produtoras da África Ocidental e da América do Sul. Até que haja melhora concreta nesses fundamentos, o atual movimento deve ser interpretado como um repique corretivo dentro de um ambiente ainda fragilizado.
Para a cadeia produtiva, especialmente produtores e processadores, o momento exige cautela. A volatilidade tende a permanecer elevada nas próximas semanas, com o mercado buscando equilíbrio entre estoques crescentes e possíveis ajustes técnicos adicionais.
Fonte: mercadodocacau


