A miopia de marketing das globais de chocolate no Brasil

Por Paulo Peixinho

A indústria global de chocolates volta a se encontrar em um ponto de inflexão no ciclo do cacau. Após a forte alta dos preços entre 2023 e 2025, os mercados internacionais agora passam por um processo de acomodação — um padrão conhecido em uma commodity marcada pela volatilidade e pela sensibilidade a choques climáticos, políticos e a mudanças de narrativa. No Brasil, porém, a fase de baixa expõe um problema mais profundo: as grandes chocolateiras globais continuam tratando uma origem estratégica como um centro de custos de curto prazo, e não como um ativo de longo prazo.

O Brasil não é um ator marginal. O país reúne produção de cacau, capacidade de moagem e um mercado consumidor relevante, empregando cerca de 23 mil pessoas diretamente. Ainda assim, a cadeia é altamente concentrada. Entre 93% e 95% da compra e da moagem de cacau estão sob controle de processadoras e indústrias chocolateiras, o que lhes confere elevado poder de formação de preços — e influência desproporcional sobre a forma como os riscos são distribuídos ao longo da cadeia.

A posição do Brasil no mercado global de cacau é singular. O país atua simultaneamente como produtor, processadora de semi-elaborados(manteiga, liquor, torta e pó de cacau), indústria de chocolates e consumidor, com vantagens comparativas claras: estabilidade política, baixo risco geopolítico, logística integrada e capital humano acumulado ao longo de décadas. Mesmo assim, esses atributos raramente se traduzem em estratégias capazes de proteger o produtor nos momentos de queda dos preços.

Durante o recente ciclo de alta, o comportamento da indústria seguiu um roteiro previsível. Os custos foram repassados ao consumidor, sucedâneos da manteiga de cacau foram amplamente utilizados, novos plantios foram incentivados e rotas alternativas de suprimento foram exploradas. Com a reversão dos preços, o movimento se inverte. A manteiga de cacau volta a ser priorizada, as margens são recalibradas — e a pressão retorna ao produtor, justamente durante a entressafra brasileira.

É nesse ponto que a miopia de marketing se torna evidente. O problema não é falta de informação, mas o excesso de foco nas margens de curto prazo. Ao tratar o cacau como uma commodity plenamente intercambiável, as empresas ignoram uma mudança estrutural da demanda. O consumidor de chocolate passa a incorporar cada vez mais critérios ambientais, sociais e de governança. Origem, credibilidade e previsibilidade de oferta importam tanto quanto o preço.

O Brasil oferece atributos que poucos países produtores conseguem reunir. O cultivo de cacau na Bahia contribuiu historicamente para a preservação da Mata Atlântica. Na Amazônia, a produção avança por meio de sistemas agroflorestais que mantêm a floresta em pé. O país desenvolveu novos terroirs, elevou padrões de qualidade e preservou a capacidade de entrega em escala — uma combinação rara no mercado global de cacau.

O contraste com a África Ocidental, responsável pela maior parte da oferta mundial, tende a se acentuar. Em diversas regiões, produtores estão abandonando o cacau, substituindo lavouras por atividades extrativas ou enfrentando pressões sociais e ambientais que afetam cada vez mais a reputação da indústria junto ao consumidor final. Isso deixou de ser apenas uma questão de sustentabilidade. Tornou-se um risco direto para a demanda.

Sob a ótica logística e institucional, o Brasil permanece como uma das origens de menor atrito operacional. A região cacaueira da Bahia concentra instituições de pesquisa, universidades, parque moageiro instalado, portos, aeroportos e uma malha rodoviária integrada.

A falha estratégica é clara. Ao não apoiar a base produtiva, impondo um desconto no preço ao produtor brasileiro, ao pressionar as processadoras para comprar a manteiga, liquor e torta barato, as chocolateiras enfraquecem a resiliência de suas próprias cadeias de suprimento e corroem o valor de marcas construídas sobre narrativas de sustentabilidade. Em um mercado no qual a reputação pesa cada vez mais nas decisões de consumo, enxergar além do próximo ciclo de preços deixou de ser opcional. Passou a ser uma exigência competitiva

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