Paulo Peixinho, cacauicultor
Parece claro que ao falar da história de um produto agrícola e seu ciclo econômico, não se pode desvencilhar dos laços históricos, culturais e comportamentais do grupo de pessoas que forma essa sociedade.
O caso específico do cacau, esta é uma “sociedade anônima”. Os nomes são ocultos, os indivíduos obscuros, sem nome ou renome, são apenas cacauiculturores.
O cacauicultor baiano, sinônimo de homem próspero, viveu a ilusão que o cacau seria sempre rendoso.
Talvez por ter sido sempre tão rentável, os cacauicultores nunca se associaram, solidarizaram e por consequência faltou-lhes uma liderança.
Os pseudolíderes das agremiações e associações da nação cacaueira, não conhecem o que é labuta do cacauicultor (plantador de cacau), estão aí por terem achado espaço vago. E, vago ficará, enquanto não houver uma união pela consciência.
Hoje, os cacauicultores derramam lágrimas de desespero.
Culpados são os cacauicultores que ficaram anônimos, quando poderiam, ter tido uma liderança política e serem conhecidos por seus nome e não simplesmente cacauicultores; Culpados são os cacauicultores permitirem que a imagem de perdulário, construída por uma pequena fatia de herdeiros e pela ficção literária, tenha se tornado uma regra; Culpados são os cacauicultores que só investiram no cacau, quando poderiam ter sido comerciantes, exportadores, industriais ou chocolateiros; Culpados são os cacauicultores que não previram a mudança do ciclo do cacau, e ainda assim foram induzidos a investir em mais plantações, induzidos pelo Estado a se tornar o maior produtore de cacau do mundo; Culpados são os cacauicultores que permitiram que um fundo de reserva compulsório fosse criado e gasto por organização estatal, sem o devido planejamento, controle e fiscalização dos recursos; Culpados são os cacauicultores por não terem se unidos por um sentimento de consciência para defender os interesses comuns.
Enfim, culpados são os cacauicultores que não se uniram, ficaram anônimos, não gritaram, não reivindicaram os seus direitos, e ainda, permitem que pseudoslíderes os representem sem conhecimento de causa.
Ainda há tempo para reverter essa situação tão crítica?
Para reverter não sabemos. Mas, ainda há tempo para os cacauicultores se associarem, e se transformarem numa sociedade com nome e coragem de lutar pelo interesse comum.
E, o tempo é hoje!
Essa reflexão foi escrita em abril de 1995, e publicada na p. 2 do Jornal Agora, Itabuna (BA), 09 a 15 de abril de 1995)
Post-Scriptum: Passados trinta anos, 1995 ano da última Política Pública (desastrosa) implantada na Região Cacaueira, indago-me: Será que realmente mudamos o nosso comportamento de 1995 para 2025?

