Cacau segue volátil, acima do 5.500 USD/ton
Mantendo a elevada volatilidade que tem caracterizado o mercado de cacau nos últimos meses, os futuros voltaram a registrar movimentos bruscos nesta semana. Após disparar na segunda-feira e levar o contrato CCU6 a fechar em US$ 6.069/t, o mercado perdeu parte dos ganhos na terça-feira. Nesta quarta-feira, contudo, os preços voltaram a avançar, avançando cerca de 2% pela manhã.
O ‘pano de fundo’ dos preços segue na sustentação de níveis historicamente elevados, refletindo muito mais as incertezas relacionadas à safra 2026/27 do que os fundamentos do balanço atual. O foco permanece concentrado na evolução do El Niño, cujos indicadores continuam se intensificando para nível ‘muito forte/extremo’ entre o final de 2026 e início de 2027. Segundo o NOAA (entidade norte-americana que monitora o fenômeno), a anomalia de temperatura da superfície do mar no Pacífico atingiu +1,8°C, superando os níveis observados no mesmo período do evento de 1997/98.
No Oeste Africano, na Costa do Marfim, os levantamentos de campo continuam reforçando uma visão mais cautelosa para a próxima safra, com taxa de sobrevivência das vagens abaixo das médias históricas e contagens de pequenas vagens inferiores às observadas em anos anteriores. Em Gana, a situação é análoga, com taxa de sobrevivência de 90%, o menor nível desde 2014. Embora ainda seja cedo para conclusões definitivas, os resultados sugerem que o potencial produtivo para 2026/27 pode ficar abaixo do inicialmente esperado por nós, especialmente se as condições mais secas previstas para as próximas semanas persistirem durante o desenvolvimento da safra principal.
Por outro lado, a fotografia da safra atual continua relativamente confortável, com embarques acumulados da Costa do Marfim somando 1,99 mmt, confirmando a forte recuperação produtiva observada em 2025/26. Em função desse desempenho, nossa projeção de balanço permanece superavitário em 422 mil t para 2025/26, acompanhado por uma significativa recomposição dos estoques mundiais.
Para 2026/27, entretanto, o excedente projetado é consideravelmente menor e permanece altamente dependente da evolução climática nos próximos meses, podendo levar o superávit de 25 mil t a um possível ‘zero-a-zero’. Uma atualização importante desta semana veio do lado regulatório.
Relatos de mercado indicam que parcela significativa da produção da Nigéria e também da Costa do Marfim pode enfrentar dificuldades para atender integralmente às exigências de rastreabilidade impostas pelo Regulamento Europeu Antidesmatamento (EUDR), que entra em vigor ao final deste ano. Como a África Ocidental responde por cerca de 70% da produção global e aproximadamente dois terços de suas exportações têm a União Europeia como destino, cresce a preocupação com uma possível escassez temporária de cacau elegível para o mercado europeu, algo que seria solucionado via fluxo para outros mercados como o de Nova York.
Embora esse fator não altere a disponibilidade física global de amêndoas, pode elevar prêmios de origem e gerar distorções regionais de oferta temporariamente. Dessa forma, o mercado continua dividido entre dois horizontes bastante distintos e a dificuldade em transpor este dilema: o balanço de 2025/26 permanece confortável, sustentado pela recuperação da produção africana, pela recomposição dos estoques e por um superávit expressivo.
Em contrapartida, para 2026/27 os riscos associados ao El Niño, os sinais menos favoráveis observados nos levantamentos de campo do Oeste Africano e agora também as incertezas ligadas à implementação do EUDR mantêm elevado o prêmio de risco embutido nos preços. Em nossa avaliação, enquanto o mercado não ganhar maior visibilidade sobre o potencial produtivo da safra 2026/27, o clima continuará sendo o principal direcionador dos preços. A combinação entre risco climático crescente, estoques ainda abaixo das médias históricas e incertezas regulatórias deve manter a volatilidade elevada e justificar a manutenção do board em patamares historicamente altos, conforme nossa visão de preços.
Essa distinção tem consequência prática. Uma retomada puxada por demanda tende a se sustentar e a puxar preço de amêndoa; uma recuperação puxada por estoque e por preço baixo tende a perder fôlego assim que o estoque se normaliza e o preço reage. A tese central deste texto é que o segundo cenário descreve melhor o que está em curso, e que a manteiga, ainda encalhada nos armazéns, deve seguir como o principal freio da moagem nos próximos meses.
Texto de mercado desenvolvido pelo time de gerenciamento de risco da StoneX.
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