O mercado do cacau: quando os fundamentos batem à porta com um crachá escrito “VERDADE”

Nos últimos meses, acompanhamos mais um capítulo interessante do mercado mundial de cacau.

Após a forte correção dos preços, surgiram análises bastante convictas afirmando que estávamos diante de uma nova realidade: a demanda havia sido destruída de forma permanente, a oferta estava voltando rapidamente, a África teria uma grande recuperação produtiva e, portanto, o ciclo de preços elevados estava definitivamente encerrado.

Mas o mercado de cacau insiste em nos lembrar de uma regra simples:

Narrativas mudam rápido. Fundamentos estruturais não.

Quando os preços caíram, muitos correram para explicar: destruição irreversível da demanda, excesso de oferta, recuperação africana, clima favorável.

Quando os preços voltaram a reagir, curiosamente, novas narrativas apareceram rapidamente: agora o motivo seria novamente o clima, riscos climáticos, possibilidade de El Niño.

Sempre uma nova explicação para acompanhar o movimento do preço.

Mas talvez a pergunta mais importante seja outra:

Por que existe tanta resistência em colocar na conta os problemas estruturais da cadeia do cacau?

Eles continuam lá.

Não fazem barulho diariamente como uma notícia climática. Não aparecem em manchetes de curto prazo. Mas são eles que, cedo ou tarde, batem à porta com um crachá no peito escrito:

VERDADE.

Uma chuva melhor pode recuperar uma safra.

Mas uma chuva não rejuvenesce uma árvore velha.
Não aumenta a densidade de uma lavoura perdida ao longo de anos.
Não substitui milhões de plantas improdutivas.
Não elimina um vírus que avança no campo.
Não reconstrói uma cadeia agrícola fragilizada.

Os desafios estruturais da oferta mundial permanecem exatamente os mesmos.

A produção segue extremamente concentrada na África Ocidental, especialmente Costa do Marfim e Gana, sustentada por regiões que por décadas abasteceram o mundo, mas que hoje enfrentam limitações profundas: envelhecimento das lavouras, baixa renovação, perda de produtividade, avanço do CSSV e necessidade enorme de investimento.

Problemas de décadas não são resolvidos com alguns meses de bom clima.

Eles exigem anos.

Muitos anos.

Exigem genética, financiamento, tecnologia, assistência técnica, infraestrutura e gestão agrícola.

Projetar recuperação é simples.

Uma planilha Excel aceita qualquer número.

A realidade do campo cobra execução.

Para substituir parte relevante da capacidade produtiva que pode ser perdida, o mundo poderá precisar de aproximadamente 1,8 milhão de novos hectares de cacau produtivo.

No Excel, conseguimos plantar isso em 10 anos.

No campo, executar em 30 anos já será um enorme desafio.

Por isso sigo defendendo uma visão: o eixo da produção mundial de cacau deverá migrar gradativamente para as Américas nos próximos 10 anos.

Não apenas porque as Américas crescerão.

Mas principalmente porque parte da África poderá reduzir sua capacidade produtiva.

Brasil, Equador, Peru e Colômbia têm uma oportunidade histórica, desde que entendam que o futuro do cacau será construído com produtividade, tecnologia e gestão.

Mercados sempre terão narrativas.

Quando cai, aparece uma explicação.
Quando sobe, aparece outra.

Mas os fundamentos estruturais permanecem.

Talvez, algumas vezes, seja melhor observar mais e narrar menos.

Porque o campo tem seu próprio tempo.

E ele sempre entrega a resposta final.

Esse tema, independentemente do assunto principal contratado, continuará tendo espaço nas minhas próximas palestras. Porque entender o futuro do cacau exige olhar além do preço de hoje.

Exige olhar para a agricultura que vai — ou não vai — existir amanhã.

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