Por Paulo Peixinho, produtor de cacau
11/02/2026
11 de fevereiro de 2026 ficará registrado como o dia do encontro presencial dos representantes do setor produtivo de amêndoas de cacau com o Ministro da Agricultura.
Um dia que despertou esperança em produtores do Acre, Amazonas, Bahia, Espírito Santo e Pará.
Ao final da reunião, amplamente registrada em vídeo pelos presentes, a angústia era visível. Muitos saíram decepcionados. Esperavam uma solução concreta. O que se percebeu, contudo, foi preocupante o aparente desconhecimento estrutural do setor por parte do Ministério. Sugeriu-se a busca de novos mercados, como Suíça, Rússia etc.
Lembremos um ponto elementar: o maior mercado do cacau brasileiro in natura é o próprio Brasil. É, justamente, por isso que as grandes processadoras importam cacau da Costa do Marfim.
No caso das recentes cargas importadas pelo porto de Ilhéus, além dos benefícios fiscais via regime de drawback, tanto tributários quanto de prazo (até dois anos para exportação), tais volumes funcionam, na prática, como estoque regulador (buffer stock) das processadoras.
Por dedução lógica, se houve erro estratégico na compra internacional pelas processadoras, não pode o produtor brasileiro ser penalizado com deságio.
A pergunta é inevitável: quem absorve essa diferença?
O que caracteriza um comércio injusto. Prática comercial desleal, onde importações mais caras, deprecia o preço internamente, sob a justificativa que não temos autossuficiência na produção, o que é de fato, mas, sem um plano de importação transparente com as autoridades competentes levou a depreciar os preços pagos ao produtor brasileiro, exatamente, no período de entressafra e quando as narrativas do mercado financeiro global levaram os preços internacionais aos níveis de julho de 2023.
Da questão fitossanitária, cabe uma pergunta: Se houvesse uma necessidade de cacau para o parque fabril da África Ocidental.
Gana e Costa do Marfim aceitaria uma carga de amêndoas de cacau do Brasil incorrendo no risco de levar a Vassoura de Bruxa para o destino?
Segundo técnicos com expertise na área fitossanitária, há risco iminente de infecção na região cacaueira da Bahia do broto inchado (Cocoa Swollel Shoot Virus Disease), que existe nas regiões da África Ocidental que já atinge em torno de 55% das plantações africanas.
Imaginemos um cenário futuro: a lavoura cacaueira baiana com Vassoura de Bruxa, Broto Inchado e Monilíase.
Seria o fim da Mata Atlântica. O parque instalado da indústria iria para outra origem. A agricultura familiar, assentados, parceiros e produtores rurais sem sustento básico. O Estado perderia divisas, impostos. Outro êxodo rural.
O silêncio dos outros atores da cadeia cacau-chocolate leva a crer que, devido a cultura secular dos produtores de não se associarem e não se unirem, que o tempo por si levará a calar os representantes da classe dos produtores.
A vida nos convida à união. A vida impõe saídas produtivas, não a vitimização.
A lição de hoje é clara: quando a adversidade bate à porta, não se paralisa, age-se.
O protagonismo do cacauicultor passa pela união, cooperativismo, comunicação clara e unificada e diálogo estruturado com todos os atores da Cadeia Cacau–Chocolate–Floresta. Buscando instrumentos de mitigação dos riscos das oscilações bruscas dos preços e custeio para a entressafra.
O momento histórico exige maturidade institucional.
Se sabemos o que queremos, devemos comunicar com clareza, agir com estratégia e defender com firmeza o valor da produção brasileira

