Para além da barra de chocolate: Por que o engessamento do cacau pune a inovação e o produtor

Por Matheus Pedrosa dos Reis

 O debate em torno do Projeto de Lei que visa elevar o teor mínimo de cacau nos chocolates brasileiros chegou a um ponto de polarização que ignora o fator mais importante para a sustentabilidade do nosso setor: a economia real.

Quero, de antemão, fixar meu posicionamento: sou um entusiasta do aumento do teor de cacau no chocolate. Na Fralía Cacau Brasil, a qualidade não é uma meta, é o nosso ponto de partida. Elevar a régua do que o brasileiro consome como “chocolate” é pedagógico e necessário para valorizar a nossa amêndoa. No entanto, como industrial, presidente do Conselho de Tecnologia e Inovação da FIEMG e conselheiro da FAPEMIG, vejo com extrema preocupação a forma como o texto caminha no Congresso, ignorando a complexidade de uma cadeia que vai muito além da gôndola de doces.

A Simbiose entre Chocolate e Confeitos

 Existe uma narrativa equivocada de que o mercado de chocolates e o de confeitos (balas, recheios e coberturas) são rivais. Os dados da ABICAB mostram o contrário. Em 2023, a produção de chocolates no Brasil cresceu 6%, alcançando 805 mil toneladas. Esse crescimento aconteceu lado a lado com um setor de balas e confeitos pujante, onde o Brasil ocupa a posição de 3º maior produtor mundial.

 Esses mercados são ecossistemas simbióticos. O setor de confeitos utiliza o cacau como ingrediente funcional e saborizante, servindo muitas vezes como a porta de entrada para o consumo de derivados. Ao “engessar” as definições por decreto em um momento de demanda global desaquecida, corremos o risco de inviabilizar produtos de giro rápido. O resultado? Inflação na ponta, queda no volume de vendas e, inevitavelmente, uma redução na compra de matéria-prima. Ou seja: a tentativa de ajudar o produtor via “canetada” pode resultar em menos cacau sendo moído no Brasil.

O Gargalo dos 6%: A Fronteira da Bioeconomia

 O ponto que mais me inquieta como defensor do conceito Cacau Tech é a miopia sobre o aproveitamento do fruto. Atualmente, a indústria global aproveita, em média, apenas 6% do peso total do fruto do cacau (basicamente a amêndoa para massa e manteiga). Os outros 94% — polpa, casca, mel e biomassa — são subutilizados ou descartados.

 Se a regulação focar apenas na rigidez da “barra de chocolate”, estaremos punindo mercados que estão prontos para explodir e que poderiam ser a salvação financeira do produtor:

  1. Nutracêuticos: O cacau é uma usina de polifenóis e flavonoides. O mercado de suplementos de alta performance e fármacos exige uma flexibilidade que definições rígidas de “padrão de identidade” podem aniquilar.
  2. Cosmética de Luxo: O Brasil é um dos maiores mercados de beleza do mundo. A extração de ativos da casca e da manteiga para séruns e cremes é bioeconomia na veia, gerando valor agregado muito superior ao cacau “commodity”.
  3. Gastronomia de Origem: O mel de cacau e os destilados da polpa representam uma nova categoria de exportação que o PL atual sequer enxerga.

O Futuro é Plural, não Regulamentado

 A solução para a indignação do produtor com os preços atuais não virá de uma lei que força a indústria a usar “mais do mesmo” em um mercado retraído. A solução virá da diversificação da demanda.

 Precisamos transformar o cacau em nota fiscal em todas as suas formas. O crescimento deve ser plural: do doce popular à barra premium de 70%, do suplemento vitamínico ao ativo cosmético. Quando engessamos a definição do cacau através da ótica de 1950, impedimos que a tecnologia do século XXI crie novas janelas de lucro para quem está no campo.

 Na Fralía, acreditamos que o futuro do cacau brasileiro é tecnológico, inovador e, acima de tudo, livre para crescer. O desenvolvimento não nasce da proibição ou da reserva de mercado, mas da capacidade da nossa indústria de encantar o mundo com a versatilidade infinita deste fruto maravilhoso.

 

 

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