VATICÍNIO SOBRE O MERCADO DE CACAU

Por Paulo A. Torres | produtor de cacau e analista de mercado | Londres

1º/05/2026

O mercado de cacau esteve, nos últimos dois a três meses, em um período claro de consolidação, essencialmente entre US$ 3.000 e US$ 3.500 por tonelada. No entanto, há sinais crescentes de inquietação — e de que esse cenário está mudando.

Estamos possivelmente assistindo a uma transição para uma nova faixa de preços, entre US$ 3.500 e US$ 4.500 por tonelada.

Essa mudança não é apenas técnica. Ela reflete uma alteração mais profunda na percepção de risco do mercado.

No curto prazo, é razoável esperar uma reprecificação gradual, com o mercado testando níveis entre US$ 4.000 e US$ 5.000, diante da preocupação com o El Niño. A zona crítica situa-se entre US$ 5.000 e US$ 6.000. Um rompimento consistente acima desses níveis poderá marcar uma mudança estrutural no mercado.

Se isso acontecer, por pânico de cobertura das posições vendidas (short covering), o potencial de alta torna-se significativo. A memória recente da subida até os US$ 12.000 por tonelada, em 2024, mudou o comportamento dos participantes: os vendedores tornaram-se mais cautelosos e os compradores, mais reativos.

Do ponto de vista fundamental, vários fatores sustentam esse cenário.

Primeiro, o risco climático associado ao El Niño continua presente em regiões-chave, como a Costa do Marfim e Gana.

Segundo, existe uma posição vendida elevada por parte dos especuladores, o que pode gerar pânico de compra para cobertura dos shorts, especialmente porque, a cada dia, as origens estão mais bem vendidas.

Terceiro, os chocolateiros estão hoje menos cobertos do que estavam em 2023, apesar de os preços atuais serem semelhantes, tendo ainda como referência as altas extremas do último ano.

Por fim, há um problema estrutural na oferta, com perdas contínuas de produção na África Ocidental, que podem não estar sendo totalmente compensadas por outros países, como Brasil ou Equador. Costa do Marfim e Gana perdem, anualmente, de 1% a 3% de suas áreas plantadas para o broto inchado.

Assim, caso o mercado consiga romper de forma consistente acima dos US$ 5.000 a US$ 6.000, por cobertura de shorts em pânico, é plausível um movimento progressivo de alta ao longo do segundo semestre de 2026, com potencial para atingir novamente a faixa entre US$ 9.000 e US$ 11.000 por tonelada.

Nesse cenário, alguns estarão comprando aquilo que venderam; outros estarão comprando porque se tornaram altistas; e a indústria tentará aumentar sua cobertura. Não há oferta suficiente nas origens para atender a tudo isso simultaneamente.

Aí, penso que seria novamente uma grande oportunidade de venda, já que esses níveis, acima de US$ 8.000 ou US$ 9.000 por tonelada, certamente afetariam bastante o consumidor final.

No entanto, aparentemente, níveis em torno de US$ 6.000 por tonelada podem ser aceitáveis e convenientes para todas as partes: chocolateiros, consumidores e produtores.

P.S.: Assim como remédios, vaticínios devem ser tomados com cautela e sempre sob vigilância para possíveis efeitos colaterais adversos.

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