A pergunta acima tem me intrigado nas minhas reflexões diárias. Como hipótese – as certezas sempre instigaram o ser humano? Se sim. Com o advento da internet e das redes sociais, as certezas pessoais e opinões passaram a serem noticiadas, postadas, publicadas em tempo real.
Como cacauicultor, sempre convivi com as incertezas: variação climáticas, doenças e pragas, oscilações de preços, ciclos econômicos, câmbio fixo e flutuante, juros, inflação, balanço da oferta e procura global, e sendo um commodity agrícola cotada nos mercados futuros e a própria volatilidade é inerente ao mercado. Este é o meu negócio.
E, o que a certeza tem a ver com a economia do cacau? (outra pergunta)
Nos últimos dois anos os preços internacionais do cacau subiram abruptamente, de
U$ 2,300 por tonelada atingindo preços máximos correntes quase U$ 13,000. No Brasil os preços saíram de R$ 200,00@ chegando até R$ 1.150,00@. (Quem previu?)
Vivenciei uma revolução de humores, primeiro uma arrancada de preços de agosto/23 a janeiro de 2024 quando atingiu a casa dos R$1.000,00@. A primeira descida até abril/24 o mercado recuou para R$ 650,00 retornando a R$ 1.000,00@ em Dezembro/24, auxiliado pelo dólar que estava acima dos R$6,00.
A segunda e atual descida o mercado recuou para US$ 5,000 TM. com os preços em torno de R$300/350,00@, o dólar a R$ 5,38 e um deságio entre -2000/-1000 por tonelada imposto pelos compradores/indústria, que por sua vez precisam importar cacau da Costa do Marfim onde o preço aos cacauicultores está R$400,00.
Durante este período observei desconfiado as variações de humores, produtores que fixaram para o ano de 2024 com preços mais baixo do dia da entrega; os que ganharam inesperadamente, em especial os que não dependiam da produção para sua subsistência; os que não venderam esperando o mercado subir para R$ 1500,00 (certezas pessoais); os que venderam na queda de abril 2024 e se arrependeram em Dezembro. Novos entrantes implantando áreas com alta tecnologia e até parceiros/meeiros que economizaram e foram cuidar de suas próprias áreas.
Fixei minha observação, nos especialistas em mercado futuro de cacau (de última hora) explicando nos grupos de mensagem, fatos já ocorridos. O que é humano. Afinal, cacau voltou as manchetes, tornou-se midiático. Voltou a ser tema da crônica cotidiana e conversa de botequim. Não pesquisei se novos “coachs” do cacau tiveram tempo para se lançarem ao mercado. (Bauman explica! Sociólogo autor de Modernidade Líquida)
Conclui que, que muitos seres humanos aspiram apostar nas suas certezas. os corajosos produtores de cacau apostam e arriscam sua própria pele. Eles são movidos pelas suas “certezas”, as vezes até cega, pois, se fizessem cálculos racionais não empreenderia suas ações. Para este ofício já existem os economistas e consultores.
O pai da administração moderna Peter Drucker disse: “diante das incertezas, não planejamos para acertar, mas para ter uma bússola e para errar menos”.
De retorno ao mundo real, pós tempestade quase perfeita, os cacauicultores devem estar em harmonia, afinal, os preços atuais duplicaram em dólar.
Nesse compasso da lida com a natureza onde o tempo é diferente e segue a Lei da Fazenda, teremos que aprender a driblar as incertezas: papel e lápis em mãos ou smartphones fazendo conta para reduzir o custo operacional, inovação, desenvolvimentos de novas habilidades, treinamentos, busca de novos conhecimentos, troca de experiências de campo, comunicação clara, gestão da fazenda (planejamento, execução e controle) da porteira da fazenda para dentro.
Da porteira para fora, desenvolver a união, associativismo, cooperativismo, manter diálogo franco e respeitoso com os atores da cadeia produtiva e outros participantes. E, construir uma bancada do cacau na política, este é o maior desafio e o maior enigma da cultura grapiúna. Enquanto, não a construímos, vamos dialogar com os representantes para que as nossas vozes sejam ouvidas pelo governo.
A minha certeza é que na outra ponta está o consumidor de chocolate, dizem até que: “de cada dez pessoas que come chocolate uma não gosta, porém está mentindo.”
Por fim, um aforismo sem juízo recheado de certezas incertas: os preços devem ficar entre 5/7 mil dólares e a partir de janeiro de 2026 o mercado deve subir. Por favor não me cobrem “certezas” pois já arrisco a minha pele plantando e cultivando cacau, e sou muito realizado.
Em tempo: enquanto revisava o texto, O governo norte americano (Trump) eliminou as tarifas de exportação para produtos de cacau brasileiro. Cabe agora uma nova incerteza, a indústria moageira vai repassar os ganhos aos produtores brasileiros?
Paulo Peixinho, cacauicultor
paulo@cacaupeixinho.com

