Por: Claudemir Zafalon
O mercado internacional de cacau atravessa um momento de ajuste, marcado por pressões nos preços e mudanças estruturais nos principais países produtores. Na Costa do Marfim, maior origem global da commodity, o governo avalia reformular seu modelo de comercialização com o objetivo de aproximar os preços pagos aos produtores das cotações internacionais. A iniciativa surge após a forte queda recente do mercado, que gerou dificuldades nas vendas e resultou no acúmulo de estoques tanto no interior quanto nos portos do país. O descompasso entre o preço interno e o mercado externo reduziu o interesse das tradings, travando o fluxo comercial e pressionando toda a cadeia.
Em Gana, segundo maior produtor mundial, a situação também inspira atenção. O órgão regulador do setor deixou de honrar mais de US$ 400 milhões em financiamentos obtidos junto a tradings nos últimos dois anos, elevando o risco de restrição de crédito para a próxima safra. Esse cenário pode comprometer a capacidade de compra do país e, consequentemente, impactar a oferta global de cacau, trazendo um componente adicional de incerteza ao mercado.
Apesar desse pano de fundo, os preços futuros registraram recuperação técnica no último pregão. O contrato de maio encerrou cotado a US$ 3.418 por tonelada, com alta de US$ 121, após oscilar entre a mínima de US$ 3.177 e a máxima de US$ 3.441. O volume negociado foi expressivo, com mais de 40 mil contratos, enquanto o interesse em aberto também avançou, sinalizando entrada de novos participantes no mercado. Ao mesmo tempo, os estoques certificados monitorados pela ICE nos portos dos Estados Unidos apresentaram aumento, totalizando mais de 2,27 milhões de sacas, o que ainda reforça a percepção de oferta disponível no curto prazo.
Do ponto de vista técnico, o mercado segue em zona de equilíbrio. O índice de força relativa (RSI) gira em torno de 45%, indicando ausência de sinais claros de sobrecompra ou sobrevenda. Os preços continuam respeitando uma faixa de consolidação, com resistências próximas de US$ 3.500 e US$ 3.800, enquanto os suportes se mantêm entre US$ 3.150 e US$ 3.000.
No cenário cambial, o contrato futuro de dólar com vencimento no fim de março de 2026 é negociado ao redor de R$ 5,25. Para o Brasil, esse patamar continua sendo um fator importante de sustentação, ajudando a manter a competitividade das exportações mesmo diante da retração das cotações internacionais.
O conjunto desses elementos reforça que o mercado de cacau vive uma fase de transição. Enquanto os preços buscam um novo ponto de equilíbrio após a forte correção recente, os países produtores enfrentam desafios internos e financeiros que podem influenciar diretamente o comportamento da oferta global nos próximos meses.
Fonte: mercadodocacau


