Costa do Marfim avalia reformar sistema de comercialização do cacau diante da queda nos preços globais

O governo da Costa do Marfim, maior produtor mundial de cacau, estuda reformar seu sistema de comercialização da commodity para tornar os preços pagos aos produtores mais alinhados às cotações internacionais. A informação foi revelada por fontes governamentais ouvidas pela Reuters e surge em meio a uma forte queda nos preços globais e a dificuldades nas vendas do produto.

Nos últimos meses, o mercado internacional de cacau passou por uma correção acentuada. Após atingir níveis recordes em 2024 , quando os contratos chegaram a superar US$ 11 mil por tonelada, as cotações perderam cerca de três quartos de seu valor e atualmente giram em torno de US$ 3.300 por tonelada.

A queda criou um desequilíbrio no sistema de comercialização adotado pela Costa do Marfim. Em outubro do ano passado, o governo definiu um preço fixo para os produtores significativamente acima dos níveis atuais do mercado internacional. Com isso, tradings e compradores globais passaram a enfrentar prejuízos nas operações de compra de cacau no país.

Diante desse cenário, muitas empresas reduziram ou suspenderam aquisições, provocando um acúmulo de estoques de cacau tanto no interior quanto nos portos marfinenses.

Para evitar uma crise ainda maior entre os agricultores, o governo precisou intervir diretamente. O Estado se comprometeu a comprar parte dos estoques não vendidos, operação que pode custar mais de 500 bilhões de francos CFA (cerca de US$ 892 milhões).

Segundo uma das fontes do governo, as autoridades já têm um plano para ajustar tanto o sistema de comercialização interno quanto as vendas externas do cacau.

“Precisamos ser mais receptivos e realistas em um mercado extremamente volátil”, afirmou a fonte.

O atual modelo de comercialização da Costa do Marfim foi implantado na safra 2012/13. Nesse sistema, o governo vende antecipadamente grande parte da safra prevista para exportadores e indústrias, normalmente cerca de um ano antes da colheita.

Com base nessas vendas antecipadas, o país estabelece um preço fixo para os produtores, anunciado no início da temporada principal em outubro. A ideia é proteger os agricultores das fortes oscilações do mercado internacional.

No entanto, a recente queda abrupta das cotações revelou fragilidades no modelo. Segundo autoridades do governo, o sistema precisa se tornar mais ágil para responder às mudanças rápidas do mercado.

“Precisamos ser mais responsivos”, disse outra fonte governamental, sem detalhar como funcionaria o novo formato.

A discussão sobre a reforma também envolve o papel das grandes tradings internacionais, que hoje dominam grande parte da comercialização do cacau marfinense.

Segundo Ismael Kone, membro do conselho consultivo do regulador do cacau e diretor da empresa Ecorigine, multinacionais controlam cerca de 80% das compras e exportações de cacau do país.

Para ele, uma reforma deveria priorizar dois objetivos principais: ampliar a venda direta para fabricantes de chocolate e fortalecer empresas locais de comercialização.

“A venda direta de cacau para a indústria do chocolate reduziria a influência das tradings internacionais e permitiria o surgimento de players locais mais fortes”, afirmou.

Nem todos os especialistas acreditam que mudanças profundas no sistema sejam viáveis. Para Tedd George, fundador da consultoria Kleos Advisory e especialista em commodities, os comerciantes internacionais ainda são essenciais para conectar a produção africana às indústrias de chocolate na Europa e nos Estados Unidos.

Segundo ele, substituir esse modelo logístico e comercial seria extremamente difícil.

Outro veterano do setor ouvido pela Reuters afirmou que, mesmo que as reformas avancem, elas dificilmente resolverão o problema central do mercado: a desaceleração da demanda global por chocolate.

“A torta tem um tamanho limitado. Vender metade diretamente à indústria e metade aos comerciantes não muda o consumo global”, afirmou o consultor.

Para analistas, o equilíbrio do mercado dependerá principalmente da recuperação da demanda por chocolate nos principais mercados consumidores. Caso isso ocorra lentamente, o setor poderá enfrentar um período prolongado de ajuste entre oferta e consumo.

Fonte: mercadodocacau com informações reuters

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