O setor cacaueiro de Gana atravessa um período de forte instabilidade após a adoção de um novo modelo de financiamento por parte do COCOBOD, órgão regulador do cacau no país. A estratégia, implementada a partir de 2024 e baseada no autofinanciamento com pagamentos antecipados de traders globais, acabou deixando agricultores sem receber pelos grãos entregues, além de expor fragilidades estruturais no segundo maior produtor mundial de cacau.
Historicamente, o COCOBOD utilizava empréstimos internacionais sindicados para financiar a compra do cacau junto aos produtores e reforçar suas reservas de comercialização. Esse mecanismo garantiu, por mais de três décadas, liquidez às empresas licenciadas e previsibilidade nos pagamentos aos agricultores. No entanto, a mudança de estratégia coincidiu com um momento adverso do mercado global.
A queda acentuada da demanda mundial e o recuo dos preços internacionais para mínimos de dois anos reduziram significativamente o apetite dos traders globais por pagamentos antecipados. Como consequência, Gana passou a conviver com um acúmulo de cacau não vendido, pressionando a liquidez da cadeia e gerando atrasos nos repasses aos produtores rurais.
Segundo Jerome Sam, diretor de comunicação do COCOBOD, a decisão de abandonar temporariamente os empréstimos sindicados, prática vigente desde 1992, trouxe desafios importantes. “Se tivéssemos o dinheiro sindicado, teríamos recursos iniciais para manter o fluxo do mercado. Sem esse capital, o sistema ficou cada vez mais dependente de grandes investidores, que acabam ditando os termos”, afirmou.
A transição conturbada para o novo modelo também elevou o risco de descontinuidade produtiva. A falta de pagamento aos agricultores compromete a capacidade de investimento na próxima safra, especialmente em tratos culturais, insumos e manutenção das lavouras, um fator crítico para a sustentabilidade da oferta futura.
Apesar das críticas, Sam defendeu o financiamento por dívida como um instrumento legítimo, desde que os recursos gerem retorno suficiente para cobrir principal, juros e margem financeira. “O problema não é o empréstimo em si, mas a incapacidade de pagar. Quando isso ocorre, é preciso reavaliar as atividades”, ressaltou.
A mudança de modelo foi motivada, em parte, pelo encarecimento do crédito internacional. Na safra 2023/24, o COCOBOD desembolsou mais de US$ 150 milhões apenas em juros relacionados ao empréstimo sindicado, pressionando suas contas em um ambiente de custos financeiros elevados.
Ao tratar dos atrasos nos pagamentos aos produtores, o representante do órgão reconheceu a gravidade da situação, mas destacou que o tema não está sendo ignorado. “Isso não é algo novo, mas também não é algo que estamos normalizando. Os agricultores são os principais interessados da cadeia de valor, e tudo o que os afeta é prioridade”, afirmou.
Diante do cenário crítico, o COCOBOD confirmou que mantém negociações com o Ministério das Finanças de Gana em busca de soluções emergenciais para restabelecer a liquidez do sistema e normalizar os pagamentos. A eventual reabertura para empréstimos internacionais sindicados volta ao centro do debate, indicando que Gana pode retomar mecanismos tradicionais de financiamento para evitar impactos mais profundos na produção e na credibilidade do seu setor cacaueiro.
Fonte: mercadodocacau com informações reuters


