Os compradores licenciados de cacau em Gana acumulam dívidas de até US$ 750 milhões junto a bancos locais, segundo a associação que representa o setor. O montante tem agravado a falta de liquidez no sistema financeiro em um momento delicado, em que os credores ainda tentam se recuperar da pior crise econômica do país em uma geração.
De acordo com Samuel Adimado, presidente da Associação de Compradores Licenciados de Cacau, os débitos com instituições financeiras somam entre 7 e 8 bilhões de cedis (US$ 650 milhões a US$ 750 milhões). Além disso, os compradores devem entre 2,2 e 2,5 bilhões de cedis aos produtores rurais. “Os juros continuam se acumulando”, afirmou o Presidente.
O setor cacaueiro ganês, o segundo maior do mundo, enfrentou duas safras consecutivas prejudicadas por doenças nas plantações e condições climáticas adversas. No cenário internacional, a fraqueza da demanda levou a uma queda acentuada dos preços, ampliando o excedente de grãos não utilizados tanto em Gana quanto na vizinha Costa do Marfim, responsáveis juntos por cerca de metade da produção global.
Os contratos futuros de cacau negociados em Londres recuaram para perto da mínima de três anos nesta semana, refletindo o desequilíbrio entre oferta e demanda.
Adimado atribui parte do problema à atuação da Cocobod, órgão regulador do setor no país. Segundo ele, a instituição teria ampliado investimentos em atividades consideradas não essenciais, como a construção de estradas, reduzindo recursos disponíveis para a compra de grãos. Com isso, os compradores passaram a depender mais de empréstimos bancários para pré-financiar suas operações.
Nesta temporada, cerca de 580 mil toneladas métricas de cacau já foram entregues à Cocobod, mas os pagamentos ainda estão pendentes. Outras 70 mil toneladas permanecem nos campos aguardando comercialização. O preço reduzido anunciado recentemente pelo governo deverá valer para aproximadamente 100 mil toneladas.
Em resposta, a Cocobod informou que trabalha em conjunto com o governo para resolver as dificuldades financeiras.
A Associação de Bancos do Gana confirmou que as instituições financeiras estão expostas ao acúmulo de dívidas no setor cacaueiro. O CEO da entidade, John Awuah, evitou divulgar valores totais, mas reconheceu que o aumento da inadimplência já levou à reestruturação de empréstimos e pode resultar em perdas.
O sistema bancário ainda sente os efeitos da reestruturação da dívida doméstica promovida pelo governo em 2023, por meio do Programa de Troca da Dívida Doméstica (DDEP). A medida incluiu a conversão forçada de títulos de curto prazo, entre eles faturas de cacau usadas para financiar compras anuais, em papéis de prazo mais longo e juros menores, o que reduziu reservas de capital e exigiu recapitalizações.
Segundo Awuah, o sistema financeiro permanece resiliente, mas demanda gestão cuidadosa para cumprir as metas estabelecidas no programa do Fundo Monetário Internacional.
Para estimular a demanda, o governo ganês anunciou neste mês a redução do preço fixo pago pelo cacau e revelou planos de criar um programa de financiamento específico para o setor. A expectativa dos compradores é que a iniciativa injete recursos urgentes na cadeia produtiva.
Enquanto isso, a combinação de preços internacionais em queda, estoques elevados e dificuldades de financiamento mantém o setor sob pressão, um cenário que pode prolongar a instabilidade em um dos pilares da economia ganesa.
Fonte: mercadodocacau com informações reuters


