Uma família de mulheres decidiu reescrever a própria história — e a da floresta — por meio do empreendedorismo na região do Baixo Rio Tocantins, em Mocajuba (PA). A empresa Cacauaré foi fundada em 2021 pela empreendedora Nilce Maia e suas três filhas Noanny, Naianny e Neilanny Maia, com um propósito claro: resgatar a cultura do cacau nativo da Amazônia e provar que é possível empreender de forma sustentável, sem derrubar a mata.
Hoje, o negócio — que trabalha com o chamado cacau cerimonial, usado em rituais de cura e conexão espiritual — dobrou de tamanho em 2025 e deve encerrar o ano com faturamento de cerca de R$ 600 mil, frente aos R$ 317 mil registrados em 2024.
Do luto à missão de vida
A relação da família com o cacau vem de longe. “Meu avô era agricultor familiar e produtor de cacau, e minha avó fazia geleias e doces. Era um ecossistema familiar”, relembra Noanny. Com o passar das gerações, a tradição foi se perdendo — até que, em 2012, o pai da empreendedora decidiu retomar a produção agrícola no território da família, em Mocajuba.
“Ele comprou o terreno do meu avô e começou um movimento tímido de produzir cacau, açaí e outras culturas, com foco em melhorar a qualidade de vida das pessoas dali”, conta. Mas, em 2020, durante a pandemia, o pai de Noanny morreu de covid-19. O luto levou as filhas de volta ao território — e ao legado deixado por ele.
“Voltamos para acompanhar a minha mãe, e lá entendemos o que ele via de problemático e o que queria transformar. Então assumimos essa missão. Queríamos que as pessoas voltassem a consumir cacau nativo da Amazônia — um fruto que quase ninguém sabe que é nativo daqui há mais de 5 mil anos.”
Assim nasceu o negócio familiar, guiado pela ancestralidade e pela vontade de desenvolver economicamente as comunidades locais. “Hoje, nosso propósito é que a floresta continue em pé e que as pessoas do território prosperem junto com a gente”, afirma Noanny.
O negócio é conduzido inteiramente por mulheres da mesma família. Para Noanny, isso se reflete em cada decisão. “Nosso modelo de gestão é inspirado em conhecimentos tradicionais, na escuta e na liderança comunitária. A mulher empreendedora tem mais empatia, organização e envolvimento com a comunidade”, afirma.
Ela acredita que essa identidade feminina é também o diferencial do impacto social que o negócio gera. “Nós somos da comunidade. A minha mãe é conhecida ali desde sempre. Isso traz confiança, aproximação e faz com que o trabalho tenha raízes. Hoje, somos a quarta geração envolvida com o cacau — mas agora com propósito e legado”, completa.
A produção é feita em Mocajuba, no Baixo Tocantins, e carrega o sabor do território. “Trabalhamos com o cacau de várzea, um dos mais raros tipos nativos do Brasil. As nuances de sabor dos nossos produtos lembram a cultura local”, explica.
A linha inclui 23 produtos, divididos entre funcionais (como granola, nibs e chá), cerimoniais (barras 100% cacau usadas em rituais) e originais de Mocajuba (geleias e doces tradicionais). “A estética da marca lembra a cidade. Os produtos são inspirados nos rituais e na história da região. Cametá, por exemplo, foi um grande polo da cacauicultura no século 18, e nós somos uma resistência desse tempo”, diz Noanny.
Os preços dos produtos variam de R$ 60 a R$ 90, em média. As barras cerimoniais de 1 kg chegam a R$ 330. Os principais canais são vendas diretas para clientes e parceiros B2B, além do digital, com presença ativa no Instagram e WhatsApp Business.
Preservar a floresta em pé é um dos pilares do negócio. Mas garantir que o manejo seja de fato sustentável exige trabalho constante. “Esse é o nosso maior desafio. A gente precisa que o produtor pegue na nossa mão e caminhe com a causa”, afirma Noanny.
A empresa incentiva os produtores locais a plantar e manejar o cacau de forma sustentável, conectando-os a compradores e oportunidades de mercado. “Às vezes, somos articuladoras: ajudamos os produtores a acessar compradores e feiras, porque antes isso não chegava. Com o crescimento, conseguimos captar recursos e estamos devolvendo isso ao território com mudas, capacitação e inclusão digital. Queremos transformar a vida das pessoas — sem mudar quem elas são.”
O cacau cerimonial, usado em rituais ancestrais, carrega um simbolismo forte. “Pela própria filosofia dos povos indígenas, o cacau é um alimento que fortalece as pessoas que cuidam da floresta. Ele é uma árvore que abraça as madeireiras, um guardião da floresta”, diz a empreendedora.
Esse entendimento orienta a expansão do negócio. “Queremos crescer mantendo a pureza do cacau. O cacau cerimonial é 100% massa e pó — não é chocolate industrial. Ele mantém seus nutrientes e provoca relaxamento, conexão espiritual e expansão da consciência”, diz.
A esperança com a COP30
A empresa participa da Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP30), que acontece em Belém. Noanny enxerga o evento como uma oportunidade para fortalecer pequenos empreendedores da Amazônia. “Espero que agora haja abertura maior de capital para investir em negócios menores, que geram impacto direto nas comunidades. A Amazônia está cheia de bons produtos e empreendedores que só precisam de investimento e estrutura”, defende.
Do ponto de vista social, ela espera que os recursos cheguem também às comunidades tradicionais. “Quero que ribeirinhos, indígenas e quilombolas participem das decisões. Que se reconheça que quem mantém a floresta em pé são as comunidades, e não apenas as empresas”, afirma.
Planos para o futuro
Entre os planos para 2026, está o início de um projeto de reflorestamento e recuperação de áreas com cacau. “Vamos desenvolver agricultura regenerativa dentro das áreas onde já atuamos. Queremos ser um polo de fortalecimento da cultura do cacau nativo da Amazônia”, diz.
A marca também pretende expandir sua operação B2B e lançar uma loja online voltada a outros mercados, inclusive internacionais. “Hoje temos 23 produtos validados e queremos trabalhar melhor com o que já existe. Nosso foco é conectar ancestralidade e qualidade de vida, gerando impacto positivo na floresta.”
Apesar da incerteza sobre os efeitos concretos da COP30, Noanny se diz otimista. “Existe um cenário de insegurança, mas acredito que a COP vai abrir caminhos para setores como o da sociobioeconomia, da alimentação e da cultura. Talvez nem todos os setores sejam impactados igualmente, mas quem trabalha com a floresta vai colher bons frutos”, afirma.
A empreendedora também tem participado de eventos como o Festival de Investimento para Negócios de Impacto da Amazônia, onde busca articulações com investidores e outros empreendedores. “Estamos discutindo quem senta à mesa quando se desenham políticas públicas e investimentos para a Amazônia. Precisamos de pessoas do território nessas conversas”, diz.
Entre fé, propósito e estratégia, Noanny resume o espírito que move seu negócio: “Queremos provar que é possível crescer e prosperar sem abrir mão das nossas raízes — porque a floresta é o nosso lar e o cacau, a nossa voz.”
Fonte: revistapegn


