Nos corredores dos supermercados, os tradicionais túneis formados por ovos de Páscoa seguem chamando a atenção dos consumidores. Mas, por trás das embalagens coloridas e do apelo visual típico da data, uma mudança silenciosa vem ganhando espaço: a redução do teor de cacau nos produtos.
Impulsionada pela forte alta nos preços da matéria-prima nos últimos anos, a indústria passou a ajustar formulações para manter competitividade. O resultado é a crescente presença de produtos com menor concentração de cacau, e consequentemente, menor qualidade nutricional.
De acordo com as normas da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), um produto só pode ser considerado chocolate quando possui pelo menos 25% de cacau em sua composição. No caso do chocolate branco, a exigência é de no mínimo 20% de manteiga de cacau. Abaixo desses limites, o que chega ao consumidor é, na prática, um doce com sabor de chocolate.
Especialistas alertam que a redução do teor de cacau altera diretamente o perfil nutricional do produto. Isso porque o cacau é a principal fonte dos compostos bioativos associados aos benefícios do chocolate, como flavonóis e polifenóis, conhecidos por suas propriedades antioxidantes e efeitos positivos na saúde cardiovascular.
Além disso, o cacau contém substâncias como a teobromina e a feniletilamina, ligadas à sensação de bem-estar, e minerais importantes como magnésio e ferro. Quando sua participação diminui, esses benefícios também se reduzem.
Para compensar sabor, textura e custo, a indústria tende a aumentar a presença de açúcar, gorduras e aditivos. Esse movimento, embora necessário do ponto de vista econômico, levanta preocupações em relação à saúde do consumidor.
Um estudo recente conduzido pelo Centro de Energia Nuclear na Agricultura da Universidade de São Paulo (Cena-USP) reforça esse cenário. A pesquisa analisou 211 amostras de 116 marcas de chocolate comercializadas no país e revelou distorções relevantes na rotulagem. Produtos classificados como “amargos”, que indicavam 60% de cacau no rótulo, apresentaram, na prática, concentrações entre 25% e 30%, patamar semelhante ao de chocolates ao leite e meio amargo.
Os resultados indicam não apenas uma possível padronização por baixo no teor de cacau, mas também levantam questionamentos sobre a transparência das informações fornecidas ao consumidor.
Em um momento em que o mercado global de cacau passa por forte volatilidade e ajustes na relação entre oferta e demanda, os impactos já são percebidos diretamente nas prateleiras. Para o consumidor, a recomendação é clara: mais do que olhar o preço ou a marca, é fundamental observar atentamente a composição do produto.
Para a cadeia produtiva, especialmente produtores, o movimento reforça uma preocupação crescente: a substituição do cacau na formulação pode, no longo prazo, afetar a demanda estrutural pela amêndoa, um ponto de atenção relevante em um mercado que já atravessa um período de ajuste significativo.
Fonte: mercadodocacau com informações da folha de sp


