A Organização Internacional do Cacau (ICCO) revisou para cima sua estimativa de superávit global para a temporada 2024/25, elevando o saldo positivo de 49 mil para 75 mil toneladas. A atualização foi publicada em 27 de fevereiro de 2026, na Edição nº 1, Volume LII do seu tradicional Boletim Trimestral de Estatísticas do Cacau, documento que serve como principal referência para governos, traders e agentes da indústria ao redor do mundo.
Segundo os dados consolidados até o início de fevereiro, a produção mundial de cacau em 2024/25 está agora estimada em 4,728 milhões de toneladas, acima das 4,698 milhões projetadas anteriormente. O volume representa um crescimento expressivo de 8,4% frente às 4,362 milhões de toneladas registradas na temporada 2023/24, marcada por uma das maiores crises de oferta da história recente.
No lado da demanda, entretanto, o cenário segue enfraquecido. A moagem global, principal termômetro do consumo industrial, foi estimada em 4,606 milhões de toneladas, praticamente estável em relação à projeção anterior (4,604 milhões), mas ainda 4,2% abaixo das 4,810 milhões de toneladas processadas na temporada passada. A combinação entre recuperação da oferta e retração do processamento elevou os estoques finais para 1,347 milhão de toneladas, alta de 5,9% na comparação anual. A relação estoque/moagem subiu para 29,2%, ante 26,4% em 2023/24, sinalizando um ambiente de maior conforto na disponibilidade global.
Os números consolidam uma virada importante no ciclo do cacau. Após o déficit recorde de 489 mil toneladas em 2023/24, o maior em mais de seis décadas, provocado por uma queda de 12,9% na produção, o mercado volta ao terreno do superávit, ainda que de forma moderada. A recuperação sugere que os preços historicamente elevados pagos aos produtores nos últimos anos estimularam maior investimento nas lavouras e intensificação dos tratos culturais.
Apesar disso, o enfraquecimento da demanda permanece evidente. A moagem europeia caiu 8,3% no quarto trimestre de 2025, totalizando 304.470 toneladas, recuo mais acentuado do que o previsto pelo mercado. A maior fabricante global de chocolate a granel, a Barry Callebaut, reportou queda de 22% no volume de vendas de sua divisão de cacau no trimestre encerrado em 30 de novembro de 2025, atribuindo o desempenho à demanda negativa e ao impacto dos preços elevados ao consumidor final.
As projeções para os próximos anos reforçam a percepção de ciclo mais confortável de oferta. A consultoria StoneX estima que o superávit global pode atingir 287 mil toneladas em 2025/26 e 267 mil toneladas em 2026/27, sugerindo um período prolongado de recomposição de estoques.
No cenário africano, os dados trazem implicações distintas para os principais produtores. Em Gana, segundo maior produtor mundial, o momento é delicado. O país enfrenta queda expressiva de produção nos últimos anos devido à incidência de doenças, avanço da mineração ilegal e dificuldades financeiras do COCOBOD. Um ambiente global de superávit tende a pressionar ainda mais as cotações internacionais, agravando os desafios fiscais e a necessidade de reestruturação do setor.
Na Costa do Marfim, maior produtor mundial e sede da ICCO, as entregas acumuladas aos portos somaram 1,30 milhão de toneladas até 15 de fevereiro de 2026, recuo de 3% frente às 1,34 milhão de toneladas registradas no mesmo período do ano anterior. O desempenho marfinense indica aperto relativo na oferta local, o que tem parcialmente compensado a recuperação mais ampla da produção global.
O novo quadro estatístico confirma que o mercado de cacau atravessa uma transição relevante: da escassez histórica para um ambiente de maior equilíbrio, e possivelmente de excedentes crescentes. Para os agentes da cadeia produtiva, especialmente produtores, processadores e investidores, o desafio agora será navegar em um cenário de estoques mais elevados, demanda ainda fragilizada e preços potencialmente mais pressionados no médio prazo.
A ICCO, com sede em Abidjan e composta por 52 países membros, incluindo 23 exportadores, continuará sendo o principal termômetro institucional dessa nova fase do ciclo global do cacau.
Fonte: mercadodocacau com informações newsghana


