Por: Claudemir Zafalon
Apesar da forte correção observada nas cotações internacionais do cacau ao longo dos últimos meses, os consumidores devem continuar enfrentando preços elevados nos produtos de Páscoa em 2026. O movimento, que pode parecer contraditório à primeira vista, está diretamente ligado à dinâmica de formação de custos da indústria chocolateira global.
Segundo David Branch, gerente do Wells Fargo Agri-Food Institute, os preços no varejo não acompanham de forma imediata as quedas da matéria-prima. Isso ocorre porque as indústrias operam com compras antecipadas, contratos de hedge e formação de estoques realizados quando o cacau ainda era negociado em patamares historicamente elevados.
Na prática, grande parte dos chocolates disponíveis nesta Páscoa foi produzida com base em custos do período de pico de preços, registrado no fim de 2024. Como consequência, os valores ao consumidor tendem a permanecer em níveis semelhantes, ou até ligeiramente superiores, aos observados em datas recentes, como o Dia dos Namorados.
Esse cenário ocorre mesmo com a expressiva queda superior a 70% nos contratos futuros de cacau desde os máximos históricos. A retração das cotações reflete a recomposição da oferta global e, principalmente, ajustes estruturais por parte da indústria, que passou a adotar estratégias como redução do tamanho das embalagens, reformulação de produtos e maior utilização de ingredientes substitutos ao cacau.
No mercado futuro, o contrato de maio encerrou a última sessão cotado a US$ 3.255 por tonelada, com recuo de US$ 76 no dia, após oscilar entre a mínima de US$ 3.171 e a máxima de US$ 3.341. O volume negociado somou 35.169 contratos, enquanto o interesse em aberto apresentou leve queda, totalizando 191.583 contratos.
Os estoques certificados monitorados pela ICE nos portos dos Estados Unidos voltaram a crescer, com aumento de 11.462 sacas, atingindo um total de 2.326.443 sacas, movimento que reforça a percepção de maior disponibilidade no curto prazo.
Do lado dos fundos, dados da CFTC indicam que, entre os dias 10 e 17 de março, houve redução de posições vendidas em 3.999 contratos, com o saldo ainda permanecendo líquido vendido em 11.152 contratos, sinalizando uma postura ainda cautelosa dos investidores.
Tecnicamente, o mercado segue em consolidação. O Índice de Força Relativa (RSI) gira em torno de 43%, indicando ausência de sobrecompra ou sobrevenda, enquanto os principais níveis gráficos apontam resistência nas faixas de US$ 3.500 e US$ 3.800, e suportes entre US$ 3.150 e US$ 3.000 por tonelada.
No cenário cambial, o contrato futuro de dólar com vencimento em 31 de março de 2026 está cotado a R$ 5,34, fator que segue influenciando diretamente a formação de preços no mercado brasileiro.
Dessa forma, a Páscoa de 2026 marca um momento de transição no setor: enquanto os preços internacionais do cacau já refletem um novo equilíbrio entre oferta e demanda, os valores ao consumidor ainda carregam os efeitos do ciclo anterior de alta. A tendência, no entanto, é que eventuais alívios nos custos comecem a ser percebidos de forma mais clara apenas nos próximos ciclos sazonais, à medida que novos contratos e estoques sejam renovados em patamares mais baixos.
Fonte: mercadodocacau



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Amos ver então se o ano que vem vai está compatível com o preço do cacau de hoje