Rachel de Queiroz (1910-2003) escritora e imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL), autora, entre outras grandes obras de “O Quinze” (1930), foi amiga de Adonias Filho (1915-1990) ele também imortal da ABL. Porém, mais do que amiga, Rachel de Queiroz foi admiradora e leitora muito atenta das obras de Adonias. Um exemplo disso está explicitado na segunda edição (1977) do romance “As Velhas” daquele autor, quando Queiroz escreveu: “o lugar de Adonias Filho na ficção brasileira, todos sabemos que é singular e pessoalíssimo. A prosa nobre e enxuta, a economia concisa do estilo, ao mesmo tempo tão sóbrio e de tão intensa conotação poética; e essa força de poesia atinge por vezes momentos tão altos que o romance chega a ser então mais um canto do que uma simples narrativa”.
As palavras de Rachel de Queiroz já dizem muito sobre a literatura regio-universal de Adonias Filho. E, no entanto, assim mesmo, arrisco-me ir além, pois a prosa adoniana é ainda um conjunto de ideias ao mesmo tempo rigorosas e classicamente estruturadas. No entanto, essas ideias, em momento algum, tornam Adonias Filho um autor “difícil”, bem pelo contrário; ele é naturalmente simples, harmonioso e muito inteligente. A estrutura de seus romances possui uma cadência, uma exatidão e uma plasticidade narrativa extremamente cativante.
“As Velhas” (1975) é um magnífico exemplo de tudo isso. O cenário é o sul da Bahia, região cacaueira. O enredo transcorre em torno de quatro velhas que após conflitos diversos perdem seus companheiros e se tornam lideranças fortes diante de suas famílias. A história está dividida em quatro partes, cada qual apresentando uma velha por vez: Tari Januária; Zefa Cinco; Zonga e Lina de Todos.
E tudo começa quando Tari Januária pede a seu filho Tonho Beré que resgate os ossos de Pedro Cobra, seu marido, assassinado há vinte anos. E foi Zefa Cinco, a segunda velha, quem matou Pedro Cobra. Mas ao encontrar Zefa Cinco, Tonho Beré surpreende-se com sua proposta: ela diria onde estariam os ossos de Pedro Cobra, se ele, Tonho Beré, trouxesse sua filha desaparecida. Nesse ínterim, Beré encontra a terceira velha, Zonga, que dá pistas valiosas do paradeiro da filha de Zefa.
A quarta velha a entrar em cena é Lina de Todos, que foi “perdida” por seu homem num jogo de cartas. Por isso, e sabendo o quanto mulher era algo precioso nas terras do cacau, Lina reverteu a situação, negociando o próprio corpo: “… era de qualquer um ou de todos, o corpo trocava por serviços na terra que possuía. Cada plantio novo de cacau teve suor de homem como adubo” (FILHO, 1977, p.115).
Como tudo isso se encontra e se encaixa no final? Leia o livro! Certamente você vai se envolver, se divertir, pensar e se surpreender!
Mas voltemos à Rachel de Queiroz: “… o romance é a narrativa das aventuras desse Jasão de sangue pataxó, empenhado a contragosto na busca do insólito velocino; e os seus choques com as três velhas, e as astúcias e a coragem que teve de usar para lhes romper as defesas e lhes penetrar as traças perigosas, reconstituindo o passo e indo captar as memórias nas suas fontes mais ocultas e trágicas. É um belo livro, um grande livro.” Sem dúvida!
As idas e vindas, as voltas e reviravoltas, os segredos. As doenças, os ataques dos “brabos” do cacau, dos índios camacãs e pataxós. As selvas quase intransponíveis, o tempo sempre carregado, pesado, chuvoso. Os bichos, os homens, as mulheres. Os primeiros plantios do cacau, os confrontos brutais numa terra em formação. As vivências de uma gente (nossa gente!) que, provavelmente, permaneceriam “invisíveis” se Adonias Filho não tivesse revelado esse mundo submerso nas entranhas das nossas matas.
Pois bem, a literatura adoniana é história, sociologia, antropologia, filosofia e, claro, muito lirismo. Adonias Filho é um grande mestre!
O texto expressa exclusivamente a opinião do colunista e é de responsabilidade do autor.


