Belém, no Pará, é destino imperdível para quem ama chocolate artesanal

A cidade não se resume ao Mercado Ver-o-Peso e ao açaí. Ela também produz alguns dos chocolates artesanais mais famosos do país

Belém, no Pará, ganhou fama nacional pelo açaí salgado, o tucupi e o tacacá na cuia. Mas já tem um tempo que, o turista que visita a cidade acrescenta o chocolate nessa lista. É que o destino tem produzido alguns dos chocolates artesanais mais comentados do país. Pudera, já que a região no coração da Amazônia, lidera produção nacional de cacau.

É “o ouro negro” da floresta que está espalhado por vários pontos. A 15 minutos de barco de Belém, navegando pelo Rio Guamá, se chega a Ilha do Combu. É ali que Izete Costa, a dona Nena, produz e vende barrinhas de chocolate enroladas na folha de cacaueiro, além de cacau em pó, brigadeiros e nibs de cacau.

Dona Nena começou sua história tentando transformar a receita de chocolate rústico da família em cobertura para os seus bombons. E a verdade é que muita gente não acreditava que a ribeirinha saberia fazer chocolate.

No início, ela montava a mesinha de chocolate na sala de casa e vendia para os poucos turistas que chegavam até a localidade. Ou comercializava na feirinha de artesanato que acontecia em Belém. Até que o chef Thiago Castanho – um dos principais nomes da culinária nacional, responsável pelo restaurante Remanso do Peixe, em Belém – conheceu o chocolate e a vida dela mudou. Foi para Gramado, fez curso de chocolateira, e aprendeu a transformar a barra rústica em chocolate refinado. Também chamado de “pão de cacau” (prática de pilar o cacau com açúcar até transformá-lo em uma pasta e moldar em uma folha da própria árvore), o chocolate rústico da Dona Nena faz sucesso há mais de uma década.

No terreno de sete hectares e meio cheio de cacau, dona Nena e as funcionárias da Filha do Combu colhem, fermentam, torram e moem todo o cacau colhido. “O processo se inicia na floresta, desde o manejo da árvore até a colheita. E as amêndoas são secas ao sol. Todo o processo é artesanal até chegar ao chocolate fino”, conta a guia de turismo Ana Paula Magalhães. No dia que HZ visitou a Ilha do Combu, dona Nena estava indisposta e não estava na propriedade.

Após ser descoberta pelo chef Thiago Castanho, Nena também forneceu seu chocolate para o D.O.M, restaurante de Alex Atala em São Paulo, e também para a chef carioca Roberta Sudbrack. Agora, o visitante pode, inclusive, viver a experiência de como é produzido o chocolate através de visitas guiadas.

AMÊNDOAS DE QUALIDADE
Todo o estado tem bons produtores – seja da amêndoa ou do chocolate. O município chamado Medicilândia, por exemplo, ostenta desde 2021 o título de Capital Nacional do Cacau. O que ajuda na fama do Pará quando o assunto é fabricação da iguaria. Prova disso, foi a realização do Chocolat Amazônia, maior evento de chocolate e cacau da América Latina, que aconteceu no final de setembro.

“A realização do festival aqui é fundamental, pela importância histórica de Belém e econômica do Pará para a produção de cacau no Brasil, além da gastronomia e da cultura”, diz Marco Lessa, idealizador do projeto. Em 2022, o festival já passou por Salvador (BA), Altamira (PA), Ilhéus (BA) e Linhares (ES), onde fez sua estreia. Neste ano, ainda estão previstos o evento, em São Paulo, em dezembro, e um internacional, no Porto, em Portugal.

Em quatro dias, o evento reuniu 160 expositores e 74 marcas. Uma delas foi a Gaudens, de Fábio Sicilia, que produz chocolate com ingredientes da Amazônia brasileira, como o bacuri, o cupuaçu e a farinha de tapioca. As linhas têm, no mínimo, 50% de cacau e não possuem adição de leite. Já a Ascurra Chocolate, que já recebeu o prêmio de melhor blend de cacau no Concurso Nacional de Qualidade de Cacau Especial do Brasil, produz mensalmente 200 quilos de chocolate. “Começamos em 2019, por curiosidade, porque já trabalhávamos com cacau e sabemos que temos uma boa amêndoa. Atualmente produzimos chocolates de dez tipos de porcentagens e vendemos para o Sul do país e São Paulo”, diz Sarah Lorena.

Flávio Cruz, da Da Cruz Chocolates, plantou cacau há muitos anos e se tornou chocolateiro, fazendo a produção bean to bar, que significa o processo da amêndoa à barra. As amêndoas são plantadas no Moju, às margens do Rio Ubá, e no Tomé-Açu. “A torra é em temperatura mediana, preservando as características naturais. E a moagem é em moinho de pedra, bem à moda antiga”, diz o chocolateiro. São cinco linhas que vão de 50% a 80% de cacau, com bombons (de pimenta, castanha, cupuaçu, café e bacuri), cacau em pó, gotas de chocolate com grão de café arábica e chocolate com flor de sal.

Tomé-Açu, localizada há cerca de quatro horas da Capital, também é uma grande produtora de cacau. É ali que está localizada a Cooperativa Agrícola Mista de Tomé-Açu (Camta) que atua com os cooperados que investem no desenvolvimento do cultivo sustentável da amêndoa de cacau, e atendem os mais exigentes mercados das indústrias de chocolate do mundo, com reconhecimento na Premiação do Cacau de Excelência do International Cocoa Awards Paris, em 2010.

Por: Guiherme Silva – A Gazeta

* O jornalista viajou a convite do Chocolat Amazônia

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