Cacau dispara acima de US$ 5.200 e mercado amplia preocupações com oferta global

Por: Claudemir Zafalon

Cobertura de posições vendidas, riscos climáticos na África Ocidental e expectativas em torno do El Niño impulsionam as cotações ao maior nível desde janeiro

O mercado internacional do cacau voltou a registrar forte valorização nesta quinta-feira. Os contratos futuros romperam a barreira dos US$ 5.200 por tonelada, alcançando o maior patamar desde janeiro e consolidando um movimento de recuperação iniciado nos últimos dias.

A alta tem sido sustentada principalmente pela intensa cobertura de posições vendidas (short covering) por parte dos fundos de investimento, combinada com a crescente preocupação em relação à oferta mundial da commodity. Após meses de expectativa de normalização da produção, investidores voltam a incorporar prêmios de risco diante da possibilidade de novos problemas climáticos na África Ocidental.

O foco do mercado permanece sobre a Costa do Marfim e Gana, responsáveis por aproximadamente 60% da produção mundial de cacau. Enquanto a safra intermediária caminha para sua reta final, as atenções já se voltam para o desenvolvimento da safra principal, que começa a ser colhida a partir de setembro.

Na Costa do Marfim, produtores relatam volumes de chuva acima da média nas principais regiões produtoras. Embora a umidade seja essencial para o desenvolvimento dos cacaueiros, o excesso de precipitações eleva significativamente o risco de alagamentos, dificulta os trabalhos de colheita e secagem das amêndoas e favorece a incidência de doenças fúngicas, como a podridão parda, além da proliferação de pragas. Esse cenário aumenta as incertezas sobre a produtividade e, principalmente, sobre a qualidade da próxima safra.

As preocupações tornam-se ainda maiores diante da crescente probabilidade de formação de um El Niño no segundo semestre. Historicamente, o fenômeno altera o regime de chuvas em diversas regiões produtoras de cacau, podendo provocar períodos de excesso de precipitação ou estiagens prolongadas, fatores que elevam a volatilidade dos preços e dificultam as estimativas de produção.

Na sessão de quarta-feira, o contrato setembro encerrou cotado a US$ 4.973 por tonelada, com expressiva valorização de US$ 328. Durante o pregão, os preços oscilaram entre a mínima de US$ 4.589 e a máxima de US$ 5.040, refletindo o aumento da volatilidade. Foram negociados 24.815 contratos, com volume total de 48.507 contratos, enquanto o interesse em aberto apresentou ligeira alta de 818 contratos, alcançando 183.318 contratos.

No mercado físico, as entregas do contrato de julho permaneceram bastante reduzidas, totalizando apenas 15 contratos na sessão, elevando o acumulado para 250 contratos, sinalizando que poucos participantes optaram pela liquidação física neste vencimento.

Outro indicador acompanhado pelos operadores continua sendo os estoques certificados da Intercontinental Exchange (ICE) nos Estados Unidos. Apesar do ambiente de forte valorização, os estoques aumentaram em 15.184 sacas, atingindo 2.936.328 sacas, movimento que ajuda a amenizar parte das preocupações imediatas com a disponibilidade física, mas ainda insuficiente para neutralizar o impacto das incertezas climáticas.

No mercado cambial, o contrato futuro do real negociado em Chicago permaneceu praticamente estável, enquanto o dólar foi cotado ao redor de R$ 5,21, fator que continua influenciando diretamente a formação dos preços pagos aos produtores e comerciantes brasileiros.

A rápida recuperação das cotações acima dos US$ 5.200 reforça que o mercado voltou a precificar riscos climáticos para a safra 2025/26. Caso as previsões de um El Niño mais intenso se confirmem e persistam relatos de excesso de chuvas ou problemas fitossanitários na África Ocidental, a volatilidade deverá permanecer elevada nas próximas semanas.

Além do comportamento dos fundos de investimento, os participantes do mercado acompanharão atentamente as condições das lavouras africanas ao longo de julho e agosto, período considerado decisivo para a formação da safra principal. Qualquer deterioração nas perspectivas de produção poderá manter o viés altista das cotações internacionais do cacau.

Fonte: mercadodocacau

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