Por: Claudemir Zafalon
O mercado internacional do cacau voltou a registrar forte volatilidade, com uma disparada expressiva dos preços impulsionada por uma combinação de fatores climáticos e movimentos técnicos. Após semanas de consolidação, o contrato julho em Nova York ganhou força com intensa cobertura de posições vendidas (short covering), enquanto novas ameaças à oferta da África Ocidental reacendem o nervosismo entre os participantes do mercado.
O contrato futuro de cacau com vencimento em julho encerrou a sessão de terça-feira cotado a US$ 4.169 por tonelada, com expressiva alta de US$ 373 no dia. A volatilidade foi intensa, com o mercado oscilando entre a mínima de US$ 3.765 e a máxima de US$ 4.199. O número de negócios somou 22.163, com volume total de 49.072 contratos negociados. O interesse em aberto, indicador que mede o posicionamento dos participantes, está estimado em 203.302 contratos.
O principal gatilho da forte alta veio da Costa do Marfim, maior produtor mundial de cacau. Fortes chuvas provocaram inundações em importantes regiões produtoras, dificultando o deslocamento de agricultores e isolando áreas de produção. O temor é que problemas logísticos e potenciais impactos na qualidade e no fluxo de oferta tragam novas restrições ao abastecimento global.
Ao mesmo tempo, o mercado também passou a incorporar um risco climático mais amplo. A possibilidade de formação de um novo El Niño voltou ao radar dos investidores, com potencial de gerar impactos relevantes sobre a produção cacaueira da África Ocidental nos próximos meses. O fenômeno é historicamente associado a alterações severas nos padrões climáticos globais, podendo resultar tanto em excesso de chuvas quanto em períodos de seca, dependendo da região e da fase do evento.
Esse componente climático ganhou ainda mais relevância diante da crescente especulação sobre um evento de maior intensidade. O risco de um chamado “Super El Niño” amplia a sensibilidade do mercado, especialmente após os impactos severos observados nas últimas temporadas, quando problemas climáticos contribuíram para o desequilíbrio entre oferta e demanda global.
Do ponto de vista técnico, a recuperação também foi alimentada pelo fechamento de posições vendidas por fundos e especuladores, movimento que costuma acelerar altas quando o mercado rompe níveis importantes de resistência. O RSI (Índice Relativo de Força) do contrato julho subiu para 59,5%, sinalizando fortalecimento do momentum comprador, embora ainda distante de uma zona considerada tecnicamente sobrecomprada.
Apesar da disparada, um fator segue atuando como contrapeso: os estoques certificados monitorados pela ICE nos portos dos Estados Unidos continuam avançando e já somam 2.745.377 sacas, indicando maior disponibilidade física de curto prazo para entrega ao mercado.
No câmbio, o contrato futuro do real para junho, com vencimento em 29 de maio, opera na faixa de R$ 5,04 por dólar. Para o mercado brasileiro, a movimentação cambial segue sendo um componente relevante na formação dos preços internos, já que as referências domésticas acompanham a conversão dos contratos internacionais negociados em Nova York.
Fonte: mercadodocacau


