Cacau dispara mais de US$ 650 e avanço do interesse em aberto reforça força do movimento

Por: Claudemir Zafalon

Os contratos futuros de cacau registraram uma das sessões mais fortes dos últimos meses, em meio ao aumento das incertezas climáticas globais e a uma mudança importante na estrutura do mercado. O contrato com vencimento em setembro encerrou o pregão cotado a US$ 5.694 por tonelada, acumulando expressiva valorização de US$ 658 em apenas uma sessão.

A volatilidade foi extrema ao longo do dia. Os preços oscilaram entre a mínima de US$ 5.144 e a máxima de US$ 5.742 por tonelada, uma amplitude próxima de US$ 600. Foram registrados 30.104 negócios, com volume total de 63.024 contratos, evidenciando a forte movimentação dos participantes diante da rápida escalada das cotações.

Um dos principais sinais da sessão veio do interesse em aberto, conhecido como Open Interest. Diferentemente do observado no início do recente movimento de alta, quando parte da valorização ocorreu acompanhada pela redução de posições e pela cobertura de vendidos, desta vez o interesse em aberto estimado avançou expressivos 4.962 contratos, alcançando 196.294 contratos.

O movimento merece atenção porque sugere entrada de novas posições no mercado, indicando maior participação e comprometimento dos investidores com a atual dinâmica de preços. Embora uma única sessão não seja suficiente para confirmar uma tendência de longo prazo, a combinação entre forte valorização, elevado volume negociado e expansão do Open Interest reforça a percepção de que o movimento ganhou uma nova dimensão.

A forte movimentação ocorre em um ambiente de crescente preocupação com os efeitos combinados das mudanças climáticas e do fenômeno El Niño. Os eventos climáticos extremos continuam afetando importantes regiões agrícolas e aumentando a sensibilidade dos mercados de commodities às previsões meteorológicas. Entre os principais riscos esperados para os próximos dias estão a possibilidade de calor extremo no oeste do Cinturão do Milho dos Estados Unidos, chuvas acima da média nas principais regiões cafeeiras do Brasil e a persistência do tempo seco nas áreas produtoras de café do Vietnã.

Embora esses eventos não estejam diretamente concentrados nas principais regiões produtoras de cacau, o cenário reforça uma percepção mais ampla de vulnerabilidade da produção agrícola global diante de padrões climáticos cada vez mais instáveis. Para o mercado de cacau, que já acompanha atentamente as condições na África Ocidental e o desenvolvimento da próxima safra, o aumento do prêmio de risco climático tende a manter a volatilidade elevada nos próximos meses.

Após a forte valorização, o RSI, índice que mede a força relativa do mercado, está negociando próximo de 75% nesta manhã. O patamar indica forte impulso comprador, mas também coloca o mercado em uma região tecnicamente considerada de sobrecompra. Isso não significa necessariamente uma reversão imediata dos preços, já que, em movimentos intensos, o indicador pode permanecer elevado durante várias sessões. Entretanto, o nível reforça a possibilidade de oscilações bruscas, realização de lucros e eventuais correções técnicas após uma valorização superior a US$ 650 em apenas um pregão.

Ao mesmo tempo, a expansão do Open Interest adiciona um componente relevante à análise. Caso os preços permaneçam sustentados e o número de contratos em aberto continue aumentando, o mercado poderá interpretar o movimento como sinal de formação de novas posições. Por outro lado, uma reversão acompanhada de liquidação dessas posições poderia ampliar ainda mais a volatilidade.

No mercado físico relacionado ao processo de entrega dos contratos futuros, foram registradas movimentações importantes. As entregas envolveram 270 contratos da SocGen, 57 contratos da StoneX e 17 contratos da RBC. Entre os recebedores, a ABN apareceu com 101 contratos, o Citi com 161, a RBC com 17 e a SocGen com 80 contratos, totalizando 359 contratos.

Os estoques certificados monitorados pela Intercontinental Exchange (ICE) nos portos dos Estados Unidos estão em 3.063.831 sacas. O nível dos estoques permanece como um dos principais indicadores fundamentais do mercado. A recuperação observada nos últimos meses ajudou a reduzir parte da pressão extrema registrada durante o auge da crise global de oferta, mas os participantes continuam atentos à evolução da disponibilidade física, à origem dos lotes e ao ritmo de entrada e retirada de cacau dos armazéns certificados.

O próximo grande teste para os fundamentos da demanda ocorrerá em 16 de julho, quando serão divulgados os dados de moagem do segundo trimestre de 2026 da Europa, Ásia e América do Norte. Os números serão especialmente importantes diante das dúvidas sobre o impacto dos elevados preços do cacau sobre a indústria processadora e o consumo de chocolate. Uma desaceleração mais intensa das moagens poderá reforçar preocupações com a destruição de demanda, enquanto resultados acima das expectativas poderiam oferecer novo suporte às cotações.

No câmbio, o contrato futuro do real para agosto, com vencimento em 30 de julho e negociado em Chicago, opera em alta, enquanto o dólar está cotado próximo de R$ 5,20. Para o mercado brasileiro de cacau, a combinação entre a forte valorização das cotações internacionais e o comportamento do câmbio amplia a atenção sobre a formação dos preços domésticos.

Após uma sessão marcada por alta de US$ 658, expansão expressiva do interesse em aberto e RSI em 75%, o mercado entra em uma fase de elevada sensibilidade. O avanço das cotações ganhou força e passou a contar com sinais de entrada de novos participantes, mas os indicadores técnicos já apontam para um ambiente esticado. Nos próximos pregões, o comportamento do Open Interest, as condições climáticas globais, a atuação dos fundos e as expectativas para as próximas safras serão decisivos para determinar se o movimento representa uma nova etapa de valorização ou se abrirá espaço para uma correção após a explosiva alta recente.

Fonte: mercadodocacau

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