Crise no cacau da Costa do Marfim se agrava com protestos e atraso em pagamentos a produtores

Por: Claudemir Zafalon

A crise no setor cacaueiro da Costa do Marfim, maior produtor mundial de cacau, ganhou novos contornos de tensão nesta semana após protestos de agricultores revoltados com atrasos no pagamento de grãos da safra principal ainda estocados e, em muitos casos, já em processo de deterioração.

Diante da escalada da insatisfação, o Conselho do Café e Cacau da Costa do Marfim (CCC) enviou representantes à região centro-leste do país para tentar conter a crise junto aos produtores, especialmente na cidade de M’Batto, onde manifestações recentes terminaram em confronto com a polícia, que utilizou gás lacrimogêneo para dispersar os agricultores que bloqueavam estradas em protesto.

No centro da crise está o acúmulo de estoques de cacau não comercializados desde novembro e dezembro, período em que os preços internacionais despencaram para níveis inferiores ao preço oficial pago ao produtor, estabelecido pelo governo marfinense. O modelo local de comercialização fixa os preços da safra antecipadamente, mas a forte queda do mercado internacional tornou economicamente inviável parte das compras, gerando um descompasso entre o preço prometido e a realidade do mercado.

Como resposta, o governo anunciou um programa para recolher os volumes encalhados. No entanto, segundo agricultores, cooperativas e fontes ligadas ao setor, grande parte dos pagamentos prometidos ainda não foi realizada, ampliando a frustração no campo.

Em Daloa, importante polo produtor na região centro-oeste, uma cooperativa que reúne mais de 300 agricultores afirma ainda manter cerca de 150 toneladas de cacau da safra principal sem solução comercial definitiva. O impacto financeiro já é severo.

“Essa situação afetará a próxima colheita, porque os produtores contavam com esses recursos para manter suas lavouras”, relatou Albert Konan, produtor e gestor cooperativista.

A crise ultrapassa a questão comercial e já alcança o aspecto social. Segundo relatos, muitos produtores enfrentam dificuldades básicas, incluindo falta de recursos para cuidados médicos, enquanto cresce a desconfiança entre agricultores e cooperativas locais.

Nas regiões de Soubré e Duekoué, alguns produtores decidiram liquidar estoques deteriorados aceitando valores muito inferiores ao originalmente esperados. Em vez dos 2.800 francos CFA por quilo definidos para a safra principal, muitos venderam ao preço da safra intermediária, de apenas 1.300 francos CFA/kg, uma perda superior a 50%.

“Não conseguimos receber o preço prometido. Os grãos estavam estragando, então fomos obrigados a vender pelo valor menor”, relatou o agricultor Salif Kone.

Embora operadores internacionais avaliem que o problema ainda não tenha impacto imediato relevante sobre a oferta global ou os preços futuros, por se tratar de uma crise localizada, cresce a preocupação com os efeitos estruturais para a próxima temporada.

Sem capital para investir em manutenção das lavouras, adubação, manejo fitossanitário e colheita, o risco de deterioração da produtividade aumenta consideravelmente. Além disso, caso a confiança no sistema continue se deteriorando, produtores podem reduzir sua participação comercial ou até reter futuras vendas, ampliando incertezas sobre a oferta marfinense.

A Plataforma Marfinense para o Cacau Sustentável, entidade que defende reformas no modelo de governança do setor, reconheceu a gravidade da situação e admitiu que, apesar dos esforços do governo para reduzir os estoques, muitos agricultores seguem sem receber.

Fonte: mercadodocacau com informações reuters

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